September 9, 2011
Formalidades

Happy-Hour Vol. 20

João Pires

Entre as formalidades que se impõem em nossa organização social, existe uma cuja minha inaptidão é evidente. Refiro-me à arte de se cumprimentar uma pessoa com naturalidade.

 

Não sei precisar se é timidez, transtorno obsessivo compulsivo ou trauma de infância. Até porque não lembro de nenhum trauma de infância. Mas o fato é: sempre que me vejo frente a frente com alguém, na iminência da saudação, hesito. São diversos os motivos.

 

Se conheço o sujeito há tempos e gostaria de vê-lo mais, me exalto. Grito, ofendo gratuitamente, uso uma variação menos convencional do apelido. Mas, na hora de bater as mãos, sempre acabo acertando o pulso ou curvando a palma menos do que deveria, provocando um breve constrangimento do indivíduo cumprimentado e a decepção geral dos presentes, inevitavelmente ansiosos por um estalo ruidoso e digno do movimento executado.

 

Outra forma menos convencional de cumprimento masculino, o beijinho, está na moda, você sabe. Não é viadagem não. Pelo menos não completamente. Pode reparar na turma do futebol, do churrasco da faculdade ou da gangue do Sergio K. Saudações sempre efusivas que incluem o beijinho, antes privilégio das almas femininas. São raras as vezes que me vejo nesta situação, mas confesso um certo desconforto. Não pela suposta viadagem, não. Fico feliz pela demonstração de afeto e mais ainda pela quebra de paradigmas comportamentais ao qual o interlocutor se sujeita. O que me incomoda é não retribuir à altura uma vez que beijinhos devem ser simultâneos e manifestar-me só depois da iniciativa alheia me parece um pouco antipático. Assim, acabo me sentindo em débito por alguns momentos e com a ligeira sensação de que todos os presentes notaram minha indelicadeza.

 

Mulheres também me confundem, principalmente quando em bando. Basta me deparar com um grupo para sentir um frio na barriga, reflexo do medo de parecer grosseiro. Me pergunto: devo sorrir para todas numa felicitação geral ou manifestar meu apreço individualmente? Geralmente opto pela segunda alternativa mas noto sempre – pode ser impressão, não sei -, um certo ar de enfado naquelas que estão quietas esperando a sua vez. Em tais ocasiões, sentindo-me intimidado, acabo não curvando adequadamente meu tórax e, apesar do som do beijo, nossas bochechas não se tocam. É esquisito.

 

Por incrível que pareça, essa minha incompetência se estende também ao ambiente virtual. Perco alguns bons minutos decidindo entre “Olá” e “Fala aí”, expressões diametralmente opostas. Gosto de ser levado a sério na mesma medida em que gosto de deixar as pessoas à vontade e quebrar o gelo. O dilema perdura até a última linha, quando agradeço a atenção e me despeço. E aí: ponto final ou exclamação? Pontos finais nunca me parecem cordiais o suficiente. Exclamações, por sua vez, me fazem parecer adolescente e pouco articulado. Por isso criei uma regra para minha versão online: para cada exclamação, dois pontos finais.

 

Ando pensando em procurar ajuda profissional para lidar com este problema. Não sei se é o caso de um psicólogo, um professor de artes cênicas ou de consultar a Glorinha Kalil para algumas aulas de etiqueta. Em todo caso, decidi dividir minha angústia com você. Assim, caso nos encontremos um dia e eu lhe parecer ríspido ou desajeitado, não me leve a mal. Eu avisei, certo?

 

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