Linhas Tortas vol.26
Guilherme Abati
Não poderia estar mais errado quem afirmava que Mardônio não passava de um madraço irrecuperável, que nada mais era que outro largado componente da desmesurada massa de ociosos. Afinal, aquilo não era uma questão de vagabundagem. Realmente não era.
Nascido na aurora do novo século, Mardônio viu as primeiras cores da vida terrestre somente após um hercúleo esforço. Sua mãe, por não mais respirar e poder auxiliar no parto, deixou ao infante toda a tarefa de vir à luz.
Não se nega que até o termo de seus cinqüenta e quatro anos, Mardônio tenha se divertido pacas e se preocupado pouco. É verdade que vivia em um espaçoso e sossegado palacete com seu misericordioso tio. Também não se pode negar que estudou o necessário quando ainda mancebo e relacionou-se como seus semelhantes o tanto suficiente já na vida adulta. Suas atividades, de fato, nada tinham que lembrassem a horrenda labuta. Gostava era de ler Aristófanes em grego, espraiado em seus aposentos; de trocar a água da dentadura da Vó Guiomar por gim; e de andarilhar, enquanto sonhava com o que o futuro podia trazer-lhe, pelas imensas plantações de laranja-lima que anteriormente haviam sido de seu avô.
Foi então que em 1954, seu tio aconchegou-se em um lado na cama de Mardônio, enquanto este já estava pelas últimas linhas de Lisístrata, pela quinta vez. O borrego irmão mais jovem de sua mãe trazia nos olhos um pesar inédito, uma tristeza notória, e aquilo o assustou imensamente; seus modos, que haviam sido sempre brandos, tinham dado lugar a uma senilidade atordoante.
Disse o tio, acompanhado por um esterto arrastado: “Mardônio, em pouquíssimos instantes eu estarei morto…” E, dito isso, caiu morto, para a completa surpresa do menino Mardônio, que precisou ainda ler as últimas letras da comédia grega para então clamar por socorro.
Dias depois, Mardônio veio entender aquilo que seu tio viera compartilhar. As laranjas-limas já não eram boas o suficiente para o gosto dos paulistas da capital. Eles as estavam trocando por outras, provenientes de Matão, as quais diziam ser mais proveitosas, mesmo ante sua qualidade notadamente inferior. Mardônio então atinou. Aquilo haveria de ser o fim da centenária lavoura, o ocaso da doce e mansa vida que levara até então. O primeiro caminhão a passar pela estrada diante de Limeira levava Mardônio, uma quantia irrisória de papel-moeda em sua maleta, e também a ânsia do homem em trabalhar.
O caminhoneiro, por perceber aquela ansiedade latente, pôs Mardônio em frente ao amplo volante, incumbindo-o de direcionar o veículo e sua provavelmente valiosa carga, e então passou a dormir pesadamente até chegar à capital paulista.
Foram duas as semanas que Mardônio levou para encontrar seu primeiro emprego. Na manhã do seu primeiro dia, ele, de fato, havia acordado contrariado; não gostaria de deixar sozinha aquela dama tão companheira, aquela coberta tão quentinha e maleável. Mas o fez. E feito, encaminhou-se obstinado. Mas ao lá chegar, seus olhos incrédulos tinham à frente apenas uma massa cinzenta e ainda chamuscante. O almoxarifado havia sido consumido pelas chamas desavisadamente durante a madrugada anterior.
Foram mais seis semanas sem desempenhar atividade remunerada alguma até o dia em que um senhor um tanto afetado pela idade o aceitou como cozinheiro de sua lanchonete. Mas, outra vez, ao chegar contrariado ao comércio de seu novo empregador na manhã seguinte, avistou o local em plenas chamas, deitando uma abaçanada fumaceira pelas ruas adjacentes.
Nos próximos dezoito anos, período em que Mardônio sofreu em decorrência dos parcos recursos e arranjou-se como deu, a cidade de São Paulo computou cerca de 112 incêndios - número que, curiosamente, coincidia com o número de empresas em que Mardônio havia arranjado, porém jamais exercido, algum cargo ou atividade.
No dia 24 de fevereiro de 1972, Mardônio acordou com a certeza de que dessa vez as coisas dar-se-iam de maneira distinta da dos ulteriores acontecimentos; tinha algo em si que lhe assegurava que aquele dia haveria de ser o dia em que trabalharia pela primeira vez. Com claras dificuldades, guinchando um som metálico e arrastado, um dos elevadores do Edifício Andraus escalava 22 andares . E enquanto ascendiam, Mardônio imaginou o obscuro corredor que o conduziria até a entrada da firma de papéis fotográficos onde começaria como atendente naquela mesma manhã - em sua fantasia, a porta tinha a aparência de uma porta enferrujada dessas de cadeias. Mas no mesmo instante em que pôs seus calçados maltratados para além das portas descortinadas do elevador, notou que pelo ar dançavam miúdos pedaços de papel esturricado, e que mais adiante, a própria porta da firma, que nada tinha de metálico, já se encontrava devorada pelo fogo, revelando as entranhas da firma em processo de incineração.
E durante os vindouros dois anos, Mardônio não encontrou alternativa exceto alugar gratuitamente um espaço embaixo de um viaduto perto da Praça das Bandeiras, enquanto, pertinaz como somente ele, ainda vasculhava a metrópole em busca de uma atividade remunerada.
Atividade que encontrou somente em 1974, quando, na cálida manhã de sexta-feira do primeiro dia de fevereiro, ele, então com 73 anos, viu-se sentado na mesa da Agência de Turismo Gastão, localizada no décimo terceiro andar do suntuoso Edifício Joelma. Mardônio, finalmente, viu-se, naquele instante, a trabalhar! E foi somente naquele instante, pois no instante seguinte o teto em chamas do andar superior despedaçou-se e esmagou toda a área da sala onde ele ainda sorria, imaginando a felicidade do falecido tio em vê-lo finalmente a trabalhar.