Linhas Tortas vol.17
Guilherme Abati
Aqui na cela meus convivas nutrem por mim um emocionante afeto.
Fazem festa em meus ralos fios grisalhos que escorrem empastados em óleo, e, quando já me encolho sob os fartos cobertores de lã tricotados por suas esposas, ternamente cantarolam as adocicadas melodias de minha juventude distante, ao pé do meu ouvido vacilante.
Tudo porque sou o homem mais velho do planeta a cometer um assassinato - consumindo uma vida humana justamente no dia em que completava meu centésimo vigésimo quarto aniversário.
O assassinado, um empresário pervertido, afeito a joguinhos esquisitérrimos, teve o corpo empalado merecidamente por uma espada samurai tarde da noite, no incômodo silêncio do Beco do Boquete.
Espero justificar através da passagem que segue a razão pela qual caracterizei tal angustiante morte de “merecida”.
Toda primeira segunda feira do mês, o diretor-fundador de uma insignificante empresa fabricante de freios para locomotivas convocava seus mais quistos funcionários à sua ampla e encarpetada sala, para que pudesse atirar pontiagudos dardos em suas bundas desnudas.
E eu era o proprietário de duas dessas nádegas mensalmente alvejadas.
Era dever do funcionário levar sua própria tinta para que seu bumbum assalariado tivesse ao fim dos preparativos pré-lançamento de dardos um aspecto bastante próximo ao de um alvo concêntrico multicolorido - e só então os jogos era iniciados.
O fiofó atingido valia 100 pontos - a mais alta pontuação devido à clara dificuldade de se acertar um dardo em localidade de tão difícil acesso.
Então, com o bumbum em riba, o funcionário rezava para que os dados fossem enterrados profundamente em seus esfíncteres, já que o funcionário que tivesse a bunda atingida nos locais de menor valor, e, assim, somasse o menor número de pontos, era sumariamente demitido.
Pois então era costume disseminado abrir o cu o tanto quanto fosse possível para que este expandisse sua área de contato e garantisse mais um mês de labuta e salário para seu dono.
Em uma dessas doloridas segundas feiras, após cinco décadas tendo a bunda feita de alvo, atingi a pontuação mais baixa entre meus concorrentes/colegas e fui enviado para o olho da rua veloz e certeiro como muitos daqueles dardos que iam para o olho do meu fiofó inocente.
Contaram- me, logo depois de minha demissão, que o metido do Oliveira tinha tomado cinco dardos no rabo e que passou o dia inteiro a se gabar e menosprezar os outros.
Que inveja desse tal de Oliveira…
À época já contava cento e vinte e três primaveras, de modo que me empreguei como morador de rua e aluguei três excelentes caixotes de papelão no luxuoso Beco do Boquete, que neste momento ainda não tinha tal alcunha.
Conforme os dias sucediam-se e eu não comia e já me encontrava desesperado de fome, tratei de arrancar meus dentes e ingeri-los junto de uma sopa à base de minha própria urina.
Desdentado, porém alimentado, veio-me à cabeça a idéia de oferecer sexo oral a qualquer interessado em meu próprio domicílio – certo tempo depois meu bequinho passou a ser denominado de Beco do Boquete pelos costumeiros freqüentadores.
E foi nesse famigerado beco que reencontrei meu antigo empregador, quando este surpreendentemente apareceu por ali, procurando uma safadeza qualquer.
Depois, satisfeito com serviço prestado, ele logo me ofereceu meu antigo cargo de volta e eu obviamente aceitei, mesmo sabendo da saudade que sentiria daquele lugarzinho tão imundo.
Entretanto minha bunda não estava dando sorte. Logo na primeira segunda feira de meu retorno fiquei em último lugar. As flechas – os dardos tinham perdido a graça- talvez sentindo um dó lacerante, optaram por não me atingir em local nenhum, o que imputou ao humor perturbado do mandatário dos freios de locomotivas um furor titânico.
Poucos dias depois lá estava eu no Beco, retornando ao meu cruel labor. E foram meses horríveis, de freqüentes e incuráveis dores no maxilar, de sopas duvidosas e de choro incontrolável junto aos papelões.
Numa dessas noites modorrentas, precisamente na noite do meu aniversário, enaunto eu lutava contra o peso das pálpebras, eis que o meu ex-empregador surge novamente.
Não, não estava ali por causa de meu cumpleanos e para me desejar felicidade e muitos anos de vida, ou para me dar uma espetada na bunda,estava sim ansioso, perguntando se eu sabia a senha do e-mail do Oliveira – ele suspeitava de umas trambicagens dele.
Eu falei que sabia sim, e que tinha ela no meu armário ali no escritório – que era de fato um saco de lixo dentro de uma caçamba de entulho. E mais, o que fui pegar não era senha porra nenhuma, meu camaradinha - era sim uma espada samurai afiadíssima que aceitei como pagamento de um japonês legítimo e que muito me apreciava.
Então, empalei o empresário e me enfiaram aqui nesta cadeia.
E aqui sou feliz; me afagam, me ninam, ouvem meus sonhos, dão-me longos banhos de espuma e cuidam de mim como um idoso realmente merece ser tratado.
Minha única queixa é que por mais que eu implore, eles não me arranjam dentadura nenhuma.