brandao.txt Vol. 16
Bruno Brandão
Desde o tempo em que a gripe suína ficou na moda, o homem da relação nunca mais foi o mesmo. Ganhou para si um medo constante de infecções, doenças e vírus. Foi então, dessa forma, que o diálogo ocorreu:
- Alfredo, por que você não quer me beijar?
- Suzana, você está estourando de febre.
- Mas sou sua mulher Alfredo, você tem obrigação de me beijar. E agora.
- Na bochecha então. Vem cá.
- Alfredo, na boca Alfredo.
- Na boca não.
- Tá com nojo de mim Alfredo?
- Pode ser suína, vai saber.
- Não é suína.
E nesse instante Suzana fecha os lábios e estabelece em sua boca um leve biquinho. Mas logo após, a única coisa que Alfredo faz é encostar os lábios da mulher com os dedos.
- Alfredo! O que é isso?
- Prevenção Suzaninha, não viu no Fantástico não? O Dráuzio Varella mandou cada um de nós nos cuidar. A suína tá por aí.
- Mas ela não está em mim e nem na minha boca.
- Como vou saber? Não quero testar pra provar.
- Um beijo Alfredo, sua mulher, sua paixão, seu amor, está pedindo um beijo. E você não pode ceder?
- É na saliva que o vírus mora sabia?
- Um selinho então.
- Tem saliva nos lábios também.
- Alfredo você prometeu na frente do padre: na saúde e na doença.
- Mas naquele tempo não tinha gripe suína.
- E se eu estiver mesmo com a suína? Você não gostaria de ficar doente comigo? Nós dois juntinhos, vendo um filminho.
- E se a gente tem um treco e morre?
- Morreremos juntos Alfredo, como nos filmes.
- E o Alfredinho, fica sozinho? Coitado. Sete anos de vida e já vai ficar órfão em dose dupla.
- O Alfredinho fica pra Sueli, minha irmã.
- O Alfredinho prefere morrer antes de passar 24 horas com a sua irmã.
- Alfredo, não muda de assunto e vem cá, vem me amar.
E Suzana levanta o lençol, convidando o marido de forma graciosa. O homem se vira animado e aperta um tubinho com extrema vontade.
- KY amor?
- Álcool em gel.