Palavra presa na garganta Vol. 16
João Vicente
Primeiro dia da aventura egocêntrica. Vou começar bem. Escolho como primeiro álbum Double Fantasy, último disco de John Lennon em vida, gravado em parceria com Yoko Ono. Meu caro amigo Mike me contou que este álbum era imperdível, com exceção às faixas cuja autoria é de Yoko. Sou um grande ignorante em matéria de Beatles e não é diferente com a carreira solo de seus integrantes. Embora imagine que a banda faz parte, de maior ou menor maneira, da história de vida de grande parte dos habitantes deste planeta, raramente recebi chamados naturais à sonoridade dos Beatles. Isso parece mudar agora.
A primeira impressão que tive, na primeira faixa, (Just Like) Starting Over foi: John Lennon é mesmo um gênio. Certamente já tinha ouvido a canção na minha vida, mas nunca parei para degustá-la com a devida atenção e, importante, saboreando lentamente a letra. Ah, as letras. Lennon tinha a capacidade sobre-humana de trabalhar uma métrica original, que acompanha com perfeição a melodia, e dar-lhe poesia. Uma poesia verdadeira, no âmago, com palavras claras e repletas de espiritualidade e sentimento. Coisas reservadas, no Brasil, a alguém como Vinicius de Moraes.
Minha segunda impressão, de acordo com o previsto por Mike, é que não sou o maior admirador das canções deste disco que foram feitas pela Yoko Ono – como se sabe, as faixas deste álbum se alternam entre autorias de John e Yoko. Talvez por culpa de meu ouvido acostumado aos arranjos redondos da música pop, simplesmente não consegui absorver os experimentalismos e sonoridades heterodoxas da então esposa de John Lennon. Entretanto, vejo momentos de brilhantismo na letra de Beautiful Boys, quando Yoko canta – aparentemente – para seu filho: “Por favor, nunca tenha medo de chorar”; “nunca tenha medo de voar”; “não tenha medo de ir ao inferno e voltar”; “não tenha medo de ter medo”. Válidas as reflexões, não?
E, falando em reflexões, é inevitável pensar um pouco sobre a vida ao ler a frase de Beautiful Boy (Darling Boy), de autoria de John Lennon, também aparentemente direcionada a seu filho: “A vida é o que acontece enquanto você está ocupado fazendo outros planos”. Há quem diga que o verso virou clichê, mas é isso o que acontece com boa parte das palavras brilhantes que alguém registrou neste mundo. E, na minha modesta e impulsiva opinião, algo tornar-se lugar-comum não desqualifica o que se diz, em absoluto. Talvez, pelo contrário, até reafirme o potencial de seu valor. Digressões à parte, fato é que me deixa à flor da pele pensar neste recado. Algo só comparável a O filho que eu quero ter, canção de, mais uma vez, Vinicius de Moraes. Não sei onde enxergo tanta semelhança, mas deve ter algo a ver com a alma.
É também deste álbum a bela Watching the wheels, uma das minhas músicas favoritas de Lennon, do pouco que conheço. Além da harmonia, melodia e arranjo bem-resolvidos, é a letra que, a meu ver, desponta em genialidade. Não consigo me controlar, meu negócio são letras. E esta afeição se dá, em muito, por conta de passagens como as desta canção, em que John Lennon afirma a necessidade de se fazer absolutamente nada. Apenas “olhar as rodas dos carros” ou “olhar as sombras na parede”.
Não sou um profundo conhecedor da história dos Beatles, tal como da discografia da banda, mas este álbum me fez pensar sobre a polêmica que questiona se Yoko Ono acabou com o grupo ou não. Assisti há alguns dias ao recente documentário LennonNYC, que retrata o período vivido por Lennon entre o término da banda e sua morte. A impressão que tive ali é que a companhia de Yoko fazia um bem extremo a John, emocional e musicalmente. E é a mesma sensação que tive ao terminar de ouvir Double Fantasy, um álbum que nada mais é do que uma celebração do amor e do amadurecimento.
* Este texto faz parte do projeto 101 discos em 1 ano. Leia mais no http://101discosem1ano.wordpress.com/