May 17, 2011
A Senhora Midori

Linhas Tortas vol.15

Guilherme Abati

A senhora que mudou o mundo, falecida ontem e nascida meio século antes, em Hokaido, chamava-se Midori Tanaka e, por ter o pai o nobre ofício de pescador, conheceu ainda  nipônica infante o animal que mudaria sua vida e conseqüentemente a minha e a sua.

Ao acompanhar o pai ao mangue, numa manhã de névoa incômoda, a senhorita Tanaka avistou próximo de seus pés descalços um grande caranguejo correndo medrosamente para dentro da lama espessa. Foi aí, conforme contou, que ela entendeu o horror da existência humana e desejou a partir daquele instante ser como um caranguejo e poder viver enterrada em um túmulo gélido de barro.

Entendeu, também nesse mesmo minuto, que deveria protestar contra todo esse mundo, contra tudo que não fosse uma paz fria, silenciosa.

Nessa época a pequena Midori começou a caminhar imitando um caranguejo sempre que se visse diante da frustração e injustiça, andando de lado, com as perninhas flexionadas e jeito desesperado. Se tivesse que ir ao médico ou ao judô ela andava normal, pra frente, mas se o médico mandasse fazer exame de sangue ela saia andando como um caranguejo, esbravejando, fincando as patinhas fortemente para fora da consulta ou, se tomasse um ipon imprevisto, lá ia ela para o vestiário chorando, fugindo da dor assim como o animalzinho assustado daquela manhã nebulosa.

Mas isso vem pouco ao caso.

O que é valido de nota é como isso mudou o mundo.

Foi assim.

Perdeu o pai e meses depois sua mãe foi engolida por uma foca– alguns biógrafos haverão de teorizar que sua mania em protestar e seu andar animalesco promoveu a abreviação da vida dos pais.

Por ser bela, Midori logo encontrou uma maneira de sustentar-se honestamente sendo gueixa em Okinawa. 

Ficou poucos dias na função, mas partiu engrandecida, ainda mais certa de sua decisão feita quando menina. Protestar era seu modo de estar, já que caranguejo, nessa vida, não mais poderia ser. Ela, mesmo tendo sofrido posteriormente ataques por ter sido, mesmo que por intantes, uma gueixa (muitos tiveram a  indecência de chamá-la de Carangueixa), jamais sentiria arrependimento por tal, pelo contrário, acreditava que se não fosse por isto não haveria de mudar o mundo tal como fez.

Imediatamente, após abandonar a labuta de gueixa, foi até a esquina mais próxima e começou a andar como um caranguejo, febrilmente, correndo paralelamente pelas calçadas, indo até o fim da rua e voltando. Ganhou notoriedade pelos 40 dias de protesto ininterrupto pelo qual submeteu-se e por fim tornou-se um símbolo da rebeldia e contestação japonesa. 

Então, no Japão, a população olhava e se visse que a menina estava por ali, andando de lado como um caranguejo, e não importava o porquê do protesto, iam todos protestar com ela e com os outros e a causa ganhava força e tudo o mais e era legal e ela andava como um caranguejo.

Esse tilintar seco e triste das patinhas insatisfeitas da menina reverbaram assustadoramente como uma bala de canhão lançada por sobre as muralhas da tradição petrificante, indo tombar danosamente sobre o sistema capitalista ocidental.  Então, nos protestos e em manifestações por direitos civis etc., que já tinham a voz arrefecendo, não mais se gritava selvagemmente por tanto tempo e em vão ou eram cantadas musiquinhas com rimas pobres ou batiam panelas ou deitavam-se diante de tanques enraivecidos - essas vozes moribundas, fadadas a terem as súplicas jamais atendidas, calaram-se e resolveram simplesmente andar assim como anda um caranguejo de mangue, assim como andava uma pequena menina do outro lado do planeta- e caladas, essas vozes minguantes foram finalmente ouvidas.

E então o mundo mudou.

Diante de qualquer injustiça ou ingerência o mundo punha-se com as pernas dobradas e andava em passos curtos, frágeis, de lado. E não havia nada que permanecesse inalterado diante de centenas de milhares de pessoas imitando um caranguejo medroso.

Terminaram com as guerras e com as buzinas. Vimos uma elevação implacável dos direitos civis de todas as minorias. Declaramos o fim da corrupção mundial, do tráfico de mulheres, de crianças, de drogas de armas, de animais. O fim dos governos e do trabalho, das mazelas, do preconceito, do dinheiro e da incompreensão, e até o Corinthians finalmente venceu a tal da Libertadores da América, um torneio de futebol supervalorizado pelos nativos de onde antes se chamava Brasil.

Em uma entrevista para um programa de televisão que eu comandei, anos antes do dia de ontem, ela resumiu-se em poucas palavras: “eu gosto de andar da mesma forma como anda um caranguejo; protestar me é natural por que não sou um caranguejo, se fosse não protestaria, somente andaria ridiculamente, como um caranguejo com medo de tudo o que não é escuro e distante”

 

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