May 19, 2011
Sublime e seu novo momento: with Rome

Palavra presa na garganta Vol. 17

João Vicente



A última sexta-feira 13 guardava bons presságios para os fãs da banda californiana Sublime. Em 2009, mais de uma década após a morte do vocalista Bradley Nowell, os integrantes remanescentes, Bud Gaugh e Eric Wilson, juntaram-se a Rome Ramirez e passaram a se apresentar sob o nome de Sublime with Rome. Foi esta a banda que tocou na Via Funchal, em São Paulo, com a missão desafiadora de relembrar o legado dos anos 90 e, ainda, mostrar as novidades que tem para oferecer.

Três dias antes da apresentação o grupo anunciou em seu site que o baterista Bud Gaugh não faria os shows da turnê sul-americana por conta de sua família e razões pessoais e, assim, seria substituído por Matt Ochoa, da banda The Dirty Heads. Sem o acompanhamento de sax, percussão e teclado, presentes no show que aconteceu há alguns meses no festival SWU, a banda apresentou-se na formação guitarra, baixo e bateria, tal como eram os shows do Sublime original.



Quem assistiu ao show anterior, o primeiro em terras brasileiras, pode ter sentido falta dos outros instrumentos que, de fato, encorpariam o som. Porém, tal simplicidade dos arranjos talvez aumentasse as chances de que estivesse ali o espírito da banda que os fãs conhecem apenas por gravações. Como disse o atual vocalista em uma entrevista no ano passado, “é uma loucura que somente um por cento dos fãs atuais do Sublime já os viram tocar ao vivo”. No entanto, a formação idêntica não ressuscitou exatamente o espírito do passado.

Rome tem um timbre de voz muito similar ao do vocalista original, além de ser um excelente guitarrista, e o baterista que substituiu Bud Gaugh executou muito bem seu papel. Logo, as canções tiveram roupagens que lembravam com propriedade as canções consagradas. Entretanto, como se sabe, música é algo composto por pitadas de diferentes instrumentos, mas que só toma forma magnânima quando é somada a muita alma.

Assim, mesmo que se focasse a atenção no baixista Eric Wilson, o representante derradeiro do Sublime original que estava no palco, nem ele era capaz de reviver algo que, no fim das contas, apenas existe nos fãs. De fato, o Sublime da minha cabeça é aquele dos vídeos, onde Bradley Nowell canta com tal intensidade que suas vísceras aparentam a iminência de uma explosão. É o dálmata Lou Dog passeando pelo palco tranquilamente, como se fosse um dos integrantes da banda. São o charuto e os olhos vermelhos de Eric Wilson, com Bud Gaugh segurando o ritmo com perfeição, independente do estado alucinógeno dos integrantes. Mais do que tudo, são aquelas três pessoas (e um cachorro), naquele momento e, por ventura, com aquelas músicas. Troque-se os outros elementos, mantenha-se as músicas, e a magia não acontece.



Contudo, “sem mania de passado”, como diria o mestre Paulinho da Viola, o Sublime with Rome não parece ter o intuito de atender, exclusivamente, aos anseios nostálgicos dos fãs do Sublime. Grande parte do repertório foi formada por novas canções, apresentadas em bloco e sem introduções do tipo “esta é do novo trabalho”, com exceção para Panic, primeiro single de Yours Truly, álbum que tem previsão de lançamento para este ano.

Uma renovação saudável parece acontecer no Sublime with Rome, uma vez que várias das novas canções escapam às formas características da obra construída no passado. Muito embora a banda tenha o desafio de lidar com fãs ávidos pelos hits conhecidos, dá a impressão de estar em busca de uma voz própria neste novo momento. Um ato de grande dignidade, afinal, seria muito mais fácil render-se ao calabouço criativo que transforma vários artistas em covers de si mesmos.

* Texto também publicado em 16/05/11 no Showlivre.com. Fotos: Laís Aranha.

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