May 26, 2011
Festival Natura Nós, música e sustentabilidade

Palavra presa na garganta Vol. 18

João Vicente

O último sábado 21 começou como tem sido de costume nesses belos dias de outono em São Paulo. Manhã de céu aberto e sol forte, com calor amenizado pela brisa leve que carrega as folhas amareladas das poucas árvores que nos restam ainda. O leitor, por favor, dê licença ao teor urbano-hippie do texto, mas era essa a atmosfera predominante no Festival Natura Nós realizado na Chácara do Jockey, com presença de Jack Johnson, Jamie Cullum, Laura Marling, Roberta Sá e António Zambujo, G. Love, Maria Gadú e BiD.

Dado o início da tarde, camisas xadrez e óculos Ray-Ban começavam a ocupar o recinto, com um público de poder aquisitivo visivelmente alto. Esta tem sido a regra nos últimos tempos, em que o Brasil integra cada vez mais o circuito dos grandes shows internacionais, porém, com preços elevados e uma plateia disposta a pagá-los.



No primeiro show do dia, G. Love apresentou-se sozinho, munido apenas de gaita e violão. O cantor é conhecido pelos fãs de Jack Johnson, pois lançou discos pela Brushfire Records, selo fonográfico do havaiano. Assistir ao show e não fazer uma relação entre ambos era inevitável, com a leveza da apresentação e o ornamento do pôr-do-sol providencial. G. Love canta sobre temas como o café (um mote justo, convenhamos) e lembrou-se de quando compôs, no Brasil, uma música que clama por “paz, amor e felicidade”. Como apontou minha ótima companhia, o nome de um dos discos do cantor remete aos momentos em que se “descansa na varanda” e, de fato, esse era o clima.

Na sequência, em um palco reservado aos artistas brasileiros, localizado no lado oposto do recinto, Roberta Sá fazia o último show da turnê Pra Se Ter Alegria. O cair da noite trouxe o frio e a elegância da cantora, uma voz de beleza unânime no atual cenário musical do país. A anunciada participação do português Antônio Zambujo teve um toque de ousadia, afinal, tocar um fado e um choro lento para um público grande, predominantemente jovem e em pé, não é tarefa simples. Mas a excelência dos protagonistas transformou o que parecia ousado em pura maestria.

De volta ao palco internacional, a aclamada Laura Marling apresentou seu folk para um número surpreendente de pessoas, uma vez que sua música escapava ao teor popular de outras atrações do festival. A displicência da calça legging e tênis de corrida com que se apresentou ofereciam contraste ao peso e intensidade de suas melodias. Curioso como a feição densa de Marling se desfazia no intervalo entre as canções, como quando agradeceu com doçura ao bom momento que estava passando.



Maria Gadú foi a primeira atração a reunir um público massivo no evento. Aparentou a segurança de quem já está habituado a estrelar grandes palcos e mostrou, com um apanhado de músicas consagradas, um bom caminho para agradar um elevado número de ouvidos. Em um set list pequeno, cantou seus hits e versões de sucessos como A história de Lily Braun, de Chico Buarque e Edu Lobo, Lanterna dos Afogados, famosa com Os Paralamas do Sucesso e Trem das Onze, de Adoniran Barbosa. Também figurou no repertório uma conhecida e interessante versão que une You know I’m no good, de Amy Winehouse, a Filosofia, de Noel Rosa.



E por falar em levar bem o público, Jamie Cullum fez uma apresentação musicalmente brilhante e com requintes de interação com a plateia. O inglês é conhecido pela postura frenética no palco e o grande número de ouvintes pareceu intensificar sua interpretação. Provoca o público: fica em pé sobre o piano, arremessa seu paletó, desata o nó da gravata. Exibe uma garrafa de Jack Daniel’s e arrisca um português no “whisky com guaraná” – neste momento, aliás, talvez sob o efeito do álcool, o cantor esquece o microfone e retorna para buscá-lo. Passeia pelas oitavas do piano até alcançar teclas imaginárias.

Poderia parecer excessivo, mas seu desempenho como instrumentista justifica qualquer frenesi. O domínio sobre o piano provoca magnetismo, arranca aplausos e distrai até o olhar dos seguranças em torno do palco, por conta de batuques na madeira a complexas versões de Don’t stop the music, de Rihanna, a High and Dry, de Radiohead. Nesta última, Jamie Cullum começa contando como utilizou a canção para conquistar uma pretendente na adolescência e termina orquestrando um dueto com as milhares de vozes presentes no recinto. Por fim, se joga no chão em êxtase, como se o palco fosse seu parque de diversões e ele soubesse brincar.

Grande parte dos presentes que lotavam a Chácara do Jockey passou a aguardar Jack Johnson no palco internacional, o que diminuiu o número de pessoas reunidas no show do produtor BiD, embora ainda fosse impressionante a gigantesca massa de pessoas em ambos os palcos. Uma orquestra de cores e instrumentos percussivos cativou boa parte do público com sua mistura de música jamaicana e nordestina, sem deixar de lado uma homenagem ao mestre Chico Science.



Última e aguardada atração da noite, Jack Johnson foi antecedido, nas caixas de som, pelas faixas Wouldn’t it be nice, dos Beach Boys, e All you need is love, dos Beatles, talvez com o intuito de trazer bons presságios ao fim da noite. Se Jamie Cullum trouxe sofisticação sonora, o havaiano ofereceu sua simplicidade. Talvez não tenha conquistado quem não é fã, mas certamente agradou quem já conhecia e esperava a apresentação. Jack Johnson tem uma postura tímida no palco, com raros momentos de interação com a plateia, e, assim, cada vislumbre de sorriso é recebido com aplausos intensos. Se há artistas que mostram o fruto de ensaios exaustivos em suas apresentações, a última atração do Natura Nós esbanjava espontaneidade, seja no papo entre os músicos, que pareciam combinar a próxima canção, seja na xícara de chá fumegante que o pianista Zach Gill carregava por onde ia. Johnson chegou a errar Slow down e justificou: “estou tentando o meu melhor”. Esta simplicidade percorria os arranjos e a postura de palco, tanto em seu introspectivo momento solo, com os hits Better together e Do you remember, quanto no fim do show, com a participação de G. Love e uma inesperada presença de Vanessa da Mata.



A marca responsável pelo evento carrega na sua comunicação o tom da responsabilidade social e não foi diferente neste festival. No entanto, se o tema pode parecer desgastado aos olhos do consumidor, era inevitável notar um apanhado de pequenos e relevantes cuidados, tais como copos descartáveis, material informativo feito de papel reciclado e praça de alimentação com opções orgânicas. Se tais iniciativas eram esperadas em virtude da tônica do evento, há de se reconhecer a importância de outros cuidados nem sempre presentes em festivais do mesmo porte, como isolamento de isopor nos alicerces das tendas, sabonetes (da marca, obviamente) nas saídas dos banheiros, totens com preços visíveis, vários caixas espalhados pelo recinto e, aos apreciadores, uma cerveja na temperatura certa. Aliás, uma tenda destinada a distribuição de pulseiras aos maiores de 18 anos, logo na entrada, já dava uma boa impressão da organização do Natura Nós. Se há pontos negativos a serem notados, formaram-se grandes filas nos quiosques e praça de alimentação com o cair da noite e a chegada massiva do público, mas houve esforço visível para que isso não acontecesse, com o elevado número de opções distribuídas pelo espaço.

No fim das contas, a música predominou no Festival Natura Nós, como era de se esperar. Mas algo de responsabilidade social e sustentabilidade pareceu ser plantado, ao menos nos momentos em que testemunhei indivíduos procurando latas para descartar seus lixos e preocupação em fechar torneiras que haviam sido deixadas abertas. Teriam sido influenciados pela tônica do evento? Espero que sim.

* Texto também publicado em 24/05/11 no Showlivre.com. Fotos: Laís Aranha.

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