May 27, 2011
O Triste Destino de Gregório Samsa

Happy-Hour. Vol. 15

João Pires

Numa manhã, ao despertar de sonhos intranquilos, Gregório Samsa deu por si transformado em uma gigantesca criatura: um ser humano.

Estava deitado sobre o que deduziu ser suas costas e sentia-se flácido, pesado. De imediato uma horrenda sensação lhe invadiu o corpo, como se, por meio de impulsos involuntários, suas entranhas o quisessem virar do avesso. Notou que a causa era o odor horrível vindo dos restos de frango assado apodrecido que tinha guardado para o café da manhã. O caldinho de laranja com cinza de cigarro também não ajudava.

Precisava sair dali. Não sabia como. Acostumado a se locomover movendo seis patas independentes, Gregório Samsa achou coisa bem esquisita ter que posicionar um pé na frente do outro e equilibrar-se em uma só perna entre ambos eventos.

Depois de meia hora e um canino – Grogório Samsa caiu muito durante seu aprendizado -, finalmente conseguiu sair do bueiro onde estava e ganhou a rua.

Pela primeira vez experimentava plenamente suas novas retinas, que agora captavam milhões de cores. Levou tempo para se acostumar. E levou mais tempo ainda para se habituar à ausência das antenas que até então o orientavam.

Superado estes obstáculos, Gregório Samsa pôs-se a caminhar. Gostou daquilo, chegando inclusive a dar sprints de poucos metros, pular barreiras, experimentando seus joelhos. Deu um salto triplo, até, caindo próximo à Doutora Elvira Mendes, que você não conhece, mas passava ali no momento.

A quase colisão o levou a reparar nas pessoas ao seu redor, que o olhavam com asco. Ok, não dava pra chamar isso de novidade mas, ora bolas, pensou, não sendo mais um inseto, não havia motivos para tamanho desprezo. Foi quando, passando por uma vitrine da Oscar Freire, viu seu reflexo e constatou estar nu.

Já que lá estava, entrou na loja em questão e vestiu-se da forma que julgou adequada. Desconhecendo as relações comerciais básicas, não atentou ao fato de não ter um puto no bolso. Diante da postura agressiva dos seguranças e vendedores, tentou esconder-se debaixo do balcão, manobra evasiva clássica da espécie. Suas novas dimensões obviamente o impediram de ter sucesso e Gregório Samsa foi posto na rua sem cerimônias.

As dificuldades foram muitas até chegar à vice-presidência de uma famosa multinacional da área química. Precisou aprender a falar, escrever, tuítar,. Foi instruído acerca do correto proceder nas diferentes situações sociais: como ser cortês e polido, usar talheres de fora para dentro, jamais fazer comentários desfavoráveis aos trajes da garota quando já não há nada mais a fazer a respeito.

O sucesso profissional veio depois que Gregório Samsa criou uma nova fórmula para inseticidas que, em vez de matar – era solidário com seus antepassados -, afastava as baratas num raio de 10 quilômetros. Coisa fina e ambientalmente correta, como estava na moda.

No auge da carreira e vivendo um affair com uma ex-BBB, Gregório Samba vivia ótima fase quando foi vitima de um repentino e infeliz acidente.

Certa feita, passando debaixo de um alto edifício, foi atingido na cabeça por um objeto que escapara das mãos ensaboadas de Nenê, diarista que ia sempre às sextas-feiras, mas naquela semana antecipou para a quinta devido a uma feijoada da comunidade. O tal objeto, um clássico Rider anos 90, número 44, atingiu Gregório Samsa na cabeça a uma velocidade de 273 km/h, matando-o na hora.

Essa é a história de Gregório Samsa. Uma barata que virou gente mas não escapou de seu destino.

 

  1. muitohorrorshow posted this
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