May 30, 2011
O Passeio

Fábio Lattes

Acepipes Vol. 20 

366 dias de ter completado 17 anos lá estava Cadú, abrindo os olhos para os raios de sol da manhã e do seu primeiro dia como um cidadão maior de idade. Era um grande dia e o começo de uma nova era na sua vida. A era motorizada!

Mal colocou os pés para fora da cama e o interfone no criado-mudo já tocou. Do outro lado, a voz de outro criado:

- “Senhor Carlos Eduardo, o senhor está disposto para o almoço? Ele já está na mesa.”

- Obrigado Samuel, já vou descer.

Vestiu as sandálias, espreguiçou aproveitando o braço esticado para alcançar o seu róbe, pendurado no mancebo a sua direita. Deu uma respirada longa e funda, deixando entrar por suas narinas o cheiro apetitoso do carbonara que esfumaçava repousando na sua cama de porcelana no andar de baixo.

Mas não foi bem fome o que este apetitoso cheiro trouxe. Mas sim, uma feliz ansiedade. O almoço posto a mesa o lembrou de outra maravilha italiana que também fica estacionada na sua casa: a coleção de carros esportivos do seu pai. Ferraris, Maseratis, Alfa Romeos, todos encerados e com suas centenas de cavalos prontos para relincharem debaixo de capôs de curvas elegantes.

A alegria que não cabia no seu peito saiu pela sua boca, atravessou a cidade zunindo entre cabos e postes e chegou aos ouvidos de Letícia – “Lelê” para os íntimos que compartilham a mesma letra na categora de “ryco, com Y” e “Letícia Siqueira-Bittencourt” aos demais mortais que costumam olhar etiquetas de preço.

“- Ai Cadú, que legaaal!”

Desligou o telefone e forrou sua cama de uma colcha nova, feita inteira de roupas recém-tiradas do armário e ainda com seus cabides. Não sabia o que vestir para este grande dia. Que ansiedade, que emoção! Externou sua alegria com palmas e pulinhos, seguidos de gritinhos emoldurados por sorrisos. Combinou tons de rosa-claro, salmão e rosa-choque e deu dois passes a frente para receber a borrifada de perfume lançada ao ar. Duas horas depois de se arrumar depressa, seguiu para o lugar combinado.

Eram 10 e meia da manhã de um sábado com sol de escorrer maquiagem e lá estava Lelê, linda, loira e impaciente. 5 minutos e nada do Cadú. Ela ali, sozinha na calçada com o peso do seu corpo apoiado no calcanhar esquerdo. Sentia-se como aquelas pessoas que via da janela escurecida do carro do seu pai. Paradas, esperando a vida passar e o cheque cair. Tudo aquilo era muito estranho, e raro. Mesmo quando em céu aberto, o céu que via tinha no horizonte os muros de um clube, ou o azul que passava pelo domo de vidro de um shopping center.

Pois hoje não. Hoje ela ia conhecer o mundo real, o mundo verdadeiro onde pessoas vão para onde bem entendem. Ir para onde quiser, quando quiser. E tudo isso com o seu amor. Melhor que isso é só seguindo para a Raposo Tavares ao final da noite.

O gostoso devaneio foi logo cortado pela imagem que via no horizonte, trêmula pelo calor que evaporava do asfalto de fritar ovo. Cadú e sua Mercedez, mas que união feliz! Lá vinha ela, cor de vinho. Vinho como o conteúdo das garrafas que iriam dividir, brindando de braços entrelaçados como dois cisnes num lago que desenham um coração com seus pescoços.

Não se conteve e balançou seus braços, sacudindo como chocalhos seus braceletes prateados. Brilhando, a Mercedez encostou na calçada e abriu sua porta. O motorista de uniforme azul-claro não deixou de esconder seu espanto com a passageira que subia as escadinhas do seu ônibus. Depois de tentar passar seu cartão e inserir a senha, pagou o deboxante cobrador e cruzou a catraca, radiante.

Cadú sorria e esperava por sua companheira, com um lugar reservado no banco do carona feito de plástico duro e pichado com liquid paper.

Deram as mãos e entrelaçaram os dedos, descobrindo juntos – entre muitas coisas – sua primeira viagem de busão.


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