June 1, 2011
O vovô fenômeno

brandao.txt Vol. 19

Bruno Brandão

Geraldo tinha 82 anos bem vividos. Viajou bastante, namorou bastante, foi a várias festas, conheceu muitas pessoas, foi bem sucedido no trabalho e possuía uma estrutura financeira tão boa que acolhia a sua e as próximas duas gerações de sua família de forma relativamente tranqüila.

O idoso era lúcido também. Lembrava dos nomes dos netos, dos nomes dos filmes, lia o jornal todos os dias e, também diariamente, tomava sua única latinha de cerveja. Dizia ele, que o apetite sexual também permanecia em alta, com tudo funcionando perfeitamente bem.

Constantemente repetia que tinha vivenciado de tudo e aproveitado integralmente o que a vida lhe ofereceu. Estava realizado e pronto para sentir passar tranquilamente os últimos anos de sua existência.

Geraldo só não esperava que, após oito décadas, ele tenha descoberto que era, provavelmente, o melhor jogador de tênis do mundo – e em toda a história do esporte.

Brincando com um dos netos numa agitada tarde de sol no clube, o vovô aplicou sete aces e enfiou dois pneus no jovem, que já era tenista semi-profissional. A precisão técnica foi tamanha que a quadra se tornou pequena para tantos curiosos que pararam para assistir ao idoso que lembrava uma mistura de Kuerten com Agassi e um pouquinho de Sampras. Foi difícil convencer aos presentes que o sócio remido nunca antes tinha encostado numa raquete. O que era a dolorosa e inesperada verdade.

Daquele dia, para a medalha de Ouro nas Olimpíadas do Rio, foram apenas cinco anos de poucos treinos e as mesmas cervejinhas diárias. O vovô Geraldo – dessa vez com 87 - bateu na final olímpica o espanhol Rafael Nadal por três sets a zero, parciais de 6-0, 6-0 e 6-1. Um score histórico. Geraldo tinha se tornado um fenômeno que intrigava a comunidade esportiva e científica. Os grupos não conseguiam explicar a aparição inédita de um talento tão tardio e, ao mesmo tempo, tão genial. Geraldo era agora objeto de estudo em todo mundo. Não faltaram entrevistas, capas de revistas e até “Maria-Raquetes” que apareciam na porta do vô, a procura de um romance milionário.

Mas a carreira do esportista, ao mesmo tempo que apareceu tarde demais, terminou muito rápido. Geraldo abandonou as vitórias de um dia pro outro, buscando ter mais tempo para fazer o que mais gostava em vida: perder, todos os dias, no futebol de botão para o seu neto João. E sempre de propósito, para a alegria contagiante do netinho de apenas seis anos, o que - segundo o vovô fenômeno - era muito melhor do que qualquer partida de tênis e qualquer medalha de ouro.

  1. muitohorrorshow posted this
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