June 2, 2011
Zeca Pagodinho. Um pouco de cerveja e muito samba.

Palavra presa na garganta Vol. 19

João Vicente



Um público maduro em sua maioria recebeu o sambista Zeca Pagodinho no Credicard Hall, em São Paulo, na sexta-feira 27. Maduros na idade e na paciência, famílias aguardavam sem alarde o atraso de 45 minutos do cantor, tempo necessário para que toda a plateia ultrapassasse o trânsito causado por um caminhão quebrado na Marginal Pinheiros. Apesar do tempo frio da capital paulistana, a expectativa pelo show era efervescente e apaziguada pelos baldes de cerveja gelada que decoravam as mesas da casa lotada.

Enfim, as cortinas sobem e, após a uma abertura arrebatadora, com a consagrada Verdade, Zeca levanta sua taça e saúda a todos com um brinde. Como é de praxe aos músicos que se entregam no palco, o sambista parece divertir-se de fato: no sorriso tímido, mas incessante, na dança desajeitada, nos gestos que acompanham os términos muito bem arranjados de cada canção.



Aliás, Zeca é acompanhado por uma verdadeira orquestra do samba e, nela, não há nota ou batuque que saia do lugar. Porém, se os arranjos são profissionais, há também espaço para a espontaneidade. Os músicos parecem contagiados pelo entusiasmo do sambista, ao ponto do trompetista do grupo arrancar o microfone de seu instrumento para acompanhar um “laiá laiá”. É a velha história de uma boa música não ser feita apenas de notas, mas de muito sentimento.

E sobre entusiasmo contagiante, felizes foram aqueles que sentaram-se nas mesas ao fundo e nas plateias superiores (os “piores” lugares), pois puderam levantar-se e dançar à vontade. Este é o tipo de show em que, a cada minuto, pessoas não resistem a permanecer sentadas e recebem reclamações dos que estão atrás. Porém, se não podiam levantar, grande parte do público acompanhava as canções de braços abertos, estendidos ao alto. Cabe observar como há algo de interessante no samba ser um tipo de música que se recebe de braços abertos.



E é esta a postura que Zeca Pagodinho tem no palco. Parece estar de braços abertos aos que estão lhe ouvindo. Se uma espectadora entrega-lhe um presente, o sambista para de cantar e guarda-o cuidadosamente na mesa, com seus copos. Se alguém lhe acena na plateia, olha com atenção e responde sorridente. Se reconhece um amigo, cumprimenta-o ao microfone, sem cerimônias. No fim das contas, Zeca tornou-se Pagodinho na roda de samba e é ali que ele parece sempre estar.

Como o próprio afirma, ao início de Orgulho do vovô, parceria sua com Arlindo Cruz: “sou avô agora, mas continuo o mesmo”. Apesar dos pouquíssimos goles de cerveja que deu durante o show, deixa o palco dançando e com sua taça em mãos. Segundo o que conhecemos, não poderia ser diferente.

* Texto também publicado em 30/05/11 no Showlivre.com. Fotos: Laís Aranha.

  1. muitohorrorshow posted this
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