June 3, 2011
Uma ressaca memorável.

Happy-Hour Vol. 17

João Pires

Escrever de ressaca não é das atividades mais aconselháveis, sobretudo pela tendência de se avaliar positivamente frases desconexas e pretensiosas.

Mas o dever é o dever. Então aproveito o tema e a circunstância para relatar a curiosa história e uma das maiores ressacas da minha vida.

Foi na manhã de 14 de março de 1831, após o evento que ficou conhecido como a Noite das Garrafadas.

Despertei com uma dor de cabeça terrível. Primeiramente pensei ter sido o vinho barato. No espelho, tive certeza: foram as garrafas do vinho barato, a julgar pelos galos na minha cabeça.

Levantei-me da pia, aproveitando para tirar o ketchup do rosto. Lembro-me vagamente de ter usado o condimento para fingir-me de morto e ludibriar a turba revoltosa que invadia a festa. Não entendi, contudo, a mostarda e a maionese mas experimentei o molho rosê e estava bom.

O Sol entrava timidamente pela janela, iluminando a nádega esquerda de Dom Pedro, Imperador, que ainda dormia.

Os anões já haviam ido embora e provavelmente levaram os flamingos que encomendamos para decorar o ambiente. A corte portuguesa era conhecida por suas excentricidades e fizemos questão de impressionar. Não dá pra dizer que impressionamos de fato, já que eles chegaram trazendo ciganos, ópio e o Freddie Mercury. Em matéria de diversão, ninguém superava os portugueses daquela época.

Não encontrando minhas cuecas, enrolei-me em pano de prato, dando origem ao que hoje se conhece como mini-saia. Foi uma verdadeira revolução, mas só eu presenciei. Talvez por isso a moda tenha demorado mais algumas décadas para pegar.

De pé, pude constatar o estrago causado pela festa: garrafas de vodka por todo canto, copos com cerveja quente, convidados dormindo com suas vergonhas de fora e um castelo de cartas de baralho na forma do Copan. Não entendi de imediato mas, no caminho do toalete-real, encontrei Oscar Niemeyer, na época beirando seus 70 anos, que me explicou as concepções e a filosofia por trás de sua arquitetura.

Aquele cenário começou a me causar um certo desconforto, principalmente porque Freddie Mercury agora bolinava nosso Imperador. Dispensei alguns instantes elaborando anedotas sobre o Reino Unido invadindo o Brasil, mas fui interrompido pelo Zezé di – sim, di - Camargo, que começou a cantar. Ele animara a noite com clássicos do reggae e standards do jazz. Mas àquela hora da manhã não havia mais ninguém na pista, exceto uma bela fã morena que sabia todas as letras de cor, embora cantasse muito mal.

Solicitei que acabassem com a algazarra mas não fui ouvido. Saí de lá, passei na pharmácia para comprar um Engov e, desde então, jurei nunca mais beber nem tampouco escrever de ressaca frases desconexas e pretensiosas.

  1. muitohorrorshow posted this
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