Palavra presa na garganta Vol. 20
João Vicente
Em 2007, a edição brasileira da revista Rolling Stone elegeu Acabou Chorare, dos Novos Baianos, como o maior disco da música brasileira. Aqui, neste blog, não me pauto por qualquer lista específica, mas sim pelo que me envergonho de não ter escutado. Porém, este disco tem alguma razão para figurar no topo da lista da Rolling Stone e eu fui descobrir qual é.
Para começar, me dei conta de que já tinha ouvido praticamente o álbum inteiro, pelas músicas pescadas aleatoriamente na internet. Assim, concluí que o número de hits já explica bem a afeição generalizada pelo disco. Ele possui regularidade na excelência – ou seja, muitas faixas muito boas.
Tendo a acreditar que o gosto por uma canção depende em muito do contexto. Se hoje, após baixar o MP3, tal música parece horrenda, em outra ocasião, talvez a mesma música se mescle ao vento do mar e ao sol acolhedor e pareça maravilhosa. Desta maneira, não posso deixar de lado o fato de que estou habituado à música brasileira e já ouvi várias das canções de Acabou Chorare à exaustão. Tal como ouvi em certa aula do professor Clóvis de Barros Filho, a mesma pamonha pode ser deliciosa no primeiro prato, mas enjoativa no segundo. Não está na pamonha, mas no corpo afetado por ela, que se transforma desde a primeira garfada.
Entretanto, algumas coisas não mudam, independente do quanto se ouça. Por exemplo, o timbre de guitarra de Pepeu Gomes, tipicamente setentista. Não sou um conhecedor da evolução dos instrumentos musicais, mas é curioso como há sons característicos a certa época. Tal como as caixas das baterias utilizadas por bandas de rock dos anos 80 parecem ecoar de maneira similar, o timbre de guitarra destes Novos Baianos lembra muito aquele utilizado no clássico Tim Maia Racional, Vol. 1. Fica a questão sobre quais serão os sons e os timbres que darão, no futuro, a cara dos anos 2000 e 2010. Talvez algo relacionado à compressão estourada das ondas sonoras de hoje em dia.
Outra coisa que ainda não mudou desde que comecei a ouvir as canções dos Novos Baianos é que as letras continuam tendo seu grande significado. Talvez mais do que as palavras em si, há uma atmosfera libertária deliciosa que permeia todo o disco. Pode ser que ela só exista no meu imaginário pessoal, formado pelas fotos e histórias do grupo que chegaram até mim. Mas o fato é que me sinto bem ao ouvir a convocação à vida que sinto em Besta é tu. Ainda mais nestes dias, em que se gasta tanto tempo vociferando contra o fenômeno recente A Banda Mais Bonita da Cidade (http://www.youtube.com/watch?v=QW0i1U4u0KE). Como se sabe, um vídeo com a música Oração se espalhou pelo Facebook e, à exceção das críticas sobre a música em si, muitos olharam estranho para a celebração da amizade e o teor feliz do vídeo, considerado neo-hippie, cafona ou o que seja. A meu ver, Besta é tu.
* Este texto faz parte do projeto 101 discos em 1 ano. Leia mais no http://101discosem1ano.wordpress.com/