Happy Hour Vol. 17
João Pires
Quem um dia irá dizer
Que existe razão
Nas coisas feitas pelo coração?
E quem irá dizer
Que não existe razão?
Eduardo abriu os olhos, mas não quis se levantar
Virou pro lado, nem viu que horas eram.
Enquanto Mônica tomava um café descalça na cozinha.
Azulejo branco, como eles quiseram.
Eduardo e Mônica, há 25 anos, se encontraram sem querer
Conversaram muito, mas passado o tempo parecem nem se conhecer
Um funcionário da firma do Eduardo que disse
“Tem uma festa legal, e a gente quer se divertir”
Festa animada, com gente interessante
“Eu to bem legal, mais uma taça da espumante”
E a Mônica não riu, e quis brigar um pouco mais com
O marido que tentava irritar.
E o Eduardo, meio tonto, nem pensava em ir pra casa
“Olha as pernas dessas duas, que belo par”
Eduardo e Mônica trocavam injúrias
Mas de vez em quando decidiam ir jantar
Eduardo nunca sugeria a lanchonete
Porquê não aguentava mais ver Mônica engordar
Caminhavam juntos no parque da cidade
A Mônica de Croc e Eduardo de Samello.
Eduardo achou bacana, e melhor não comentar a bunda
Daquela mina com tinta no cabelo
Eduardo e Mônica tinham ficado parecidos
Ela era aposentada e ele tinha cinqüenta e seis
Ela fez Medicina, mas trabalhou com decoração
E ele não terminou as aulas de inglês
Ela gostava do Faustão, do Ray Conniff
Romero Britto, Rei Roberto, Fagner e Paulo Coelho
E o Eduardo ainda na novela
E antes via o jornal, coçando seus pentelhos.
Ela ignorava tudo sobre o Planalto Central
Mas lia horóscopo e a programação.
E o Eduardo tava no esquema
Trabalho, cinema, bar, televisão
Os dois, na convivência tão freqüente, a rotina, de repente,
Sem vontade de se ver
E eles se encontravam todo dia
E a vontade diminuía, como tinha de ser
Eduardo e Mônica fizeram hidroginástica, terapia, pilates e de vez em quando tentavam viajar
A Mônica reclamava pro Eduardo
Coisas sobre o preço, o calor, o frio e o ar.
Ele aprendeu a beber, deixou a barba crescer
E decidiu parar de trabalhar
E ela só chorou no primeiro mês
Que ele passou a se ausentar.
E os dois quebravam a sala juntos
Enquanto brigavam juntos, a empregada tinha dó.
E todo mundo diz que ele faz mal pra ela
E vice-versa, como cigarro e pó.
Venderam a casa há umas semanas atrás
Mais ou menos quando os gêmeos mudaram
Moram de aluguel, num quarto dos fundos.
Foi a melhor coisa que arranjaram.
Eduardo e Mônica ainda vivem em Brasília
E a nossa amizade dá saudade no verão
Só que nessas férias, não vão viajar
Porque o filho do Eduardo tá na reabilitação.
E quem um dia irá dizer
Que existe razão
Nas coisas feitas pelo coração?
E quem irá dizer
Que não existe razão?
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