Linhas Tortas vol.19
Guilherme Abati
para mais: O Pardal Imoral - http://pardalimoral.blogspot.com/
Na esquina da Rua das Maritacas com o Beco do Boquete, eu, Michel Brochmann, judeu praticante não muito respeitado pela comunidade de Higienópolis, caminhava apressado e atrasado para o serviço de salafrário que presto em um sobrado alugado ao lado da sinagoga que por muito pouco não arranha a alva pele das nuvens, quando fui interpelado abruptamente por um mendigo estirado sobre fragmentos de um pôster, onde vislumbrei rapidamente uma bundinha magra dessas mulheres não judias de revistas.
Esse morador de rua, que claramente não era judeu como sou eu, mamãe e Hannah, tinha a pele lisa e escorregadia de tão oleosa e negra, e, Deus me perdoe, era tal qual uma foca dessas da televisão, sem a graça das focas que equilibram aquelas bolinhas no focinho mas com o mesmo olhar enraivecido das focas quando estão prontas para aplicar uma bela dentada nos mamilos das suas presas e prejudicar seu sono durante algumas longas semanas.
- Quer ser feliz, barbudão? – berrou o maltrapilho, junto dessa minha orelha esquerda escolhida por Deus que no momento, por convenções sociais, encontrava-se ilhada entre minha longa barba desgrenhada e os esvoaçantes e ensebados cabelos encaracolados de semita que pendem nojentamente para além das bordas do boné do New York Giants que afanei no último Natal dum desses muitos cristãos bobalhões, na padaria do Vitão.
- Gostaria deveras, meu homem imundo – respondi surpreso, insuflado por uma fugaz esperança – Qual o esquema? Vá falando logo, tenho meus assuntos de salafrário ali próximo da sinagoga!
O mendigo levantou-se com dificuldade do chão e aproximou-se de mim, o judeu - um dos inúmeros que teve um vovô perspicaz, prontificado a deixar os móveis e os cofres para trás, abandonando a pátria tão logo o primeiro galo cantasse.
-É bastante simples!- ele me assegurou.
- O quê? – perguntei, cheio de uma curiosíssima curiosidade e também bastante atraído pelo hálito natural dos homens pré-históricos, pré Oral-B, pré-fio-dental explosão total sabor menta de 5 metros.
- Do que você tá falando, cara? – ele questionou.
- Você disse que era bastante simples, não?
- Sim. É muito simples - ele assegurou ainda mais seguro do que antes, quando já me parecia seguro o suficiente.
-Sim. Mas o que é simples?
- Fazer as coisas acontecerem - dizia tudo com uma voz saltitante de alegria satisfeita. - Veja: ontem mesmo eu era um mendigo, desses aí que vivem bem sem trabalhar e são mantidos pelas boas almas dos solidários transeuntes dessa São Paulo de meu Deus. Porém, essa vida mansa não me agradava, carinha. Não me agradava em momento algum. Absolutamente. Então, ontem, meu último dente de leite caiu e eu pedi para a fada do dente que em vez das costumeiras cinco pedras de crack como presente, eu preferia acordar sendo Adolf Hitler…
E, de fato, aquele homem era Adolf! E eu, de fato, um homem não muito respeitado pelo povo judeu, podia ver aquilo com uma clareza inquestionável.
A pele da face lisa, oleosa e ébana do outrora mendigo agora derretia-se lentamente e de trás daquele conjunto infeliz formado por um nariz curvado, por uma boca fina, por fartos pêlos abomináveis e olhos vulturinos, os quais estavam liquefazendo-se celeremente, surgiu um ameaçador e sisudo rosto acompanhado de um bigodinho retangular, bem escovado e engraçado demais… rá!, queria ter essa bigodinho ao invés dessa barba incômoda, cheguei a pensar, isso não posso negar.
Eu, Brochmann, mantenedor de assuntos escusos no sobrado de número 57 imediatamente ao lado do suntuoso portão da Sinagoga Talmud Thorá Lubavitch, notei que estava diante de Adolf e também fui capaz de notar meu sangue elevar-se, fervilhar, gaseificar-se, solidificar-se e, depois, por fim, correr pelo interior de minhas veias judaicas no sentido contrário ao usual - como podem notar, eu estava notando coisas demais. E ao notar isso, notei também que aquele famoso bigode era indubitavelmente uma obra de arte das mais esplêndidas deste mundo - indubitavelmente era um genocida de modos ímpares, como pouquíssimos assassinos em massa tiveram a competência de ser.
Mas isto não bastava, distinto e caro leitor.
Aprendi desde muito infante, quando já era judeu, circuncisado e com uma aplicação bancária rendendo 11% ao mês, a odiar aquele homem independente de ter aquele fantástico grupo de pêlos minuciosamente desenhados debaixo do nariz fino de psicopata.
Ora, bem em minha frente, eu tinha o homem que exterminou seis milhões de judeus - aí concluí que algo deveria ser feito.
E então, eu, que de modo algum represento esse distinto e muito afável povo, possuído por um desespero extremo e por um grotesco e incontrolável fluxo de raiva, comecei a enforcá-lo, apertando-lhe o fino pescoço do ditador genocida, que paralelamente é morador de rua, por entre minhas mãos e dedos e anéis e unhas e aliança. E depois, precisos vinte e três segundos depois, abandonei o pescoço nazista e esganado de Adolf e seu corpo desfalecido caiu sobre o pôster do outrora mendigo.
Olhei novamente para a bunda magra estampada no pôster antes de correr veloz como pude, e como um guepardo endiabrado cruzei a frente do sobradinho verde de onde, inegavelmente, ludibrio a lei e engano meus semelhantes.
E feito um raio divino nascido do único Deus que há, prestes a iluminar e confortar meus irmãos comunicando-lhes a justa vingança de nosso povo, adentrei escandalosamente a imensa sinagoga. Por seu refrescante interior minha frase ecoou, engordou, e intensificou-se de uma maneira tão espessa que estava a ponto de ser quase palpável: “Fui eu, galera! Eu matei Adolf Hitler.”
Junto às longas barbas do Rabino estava Illana, esposa do digníssimo Jacó, mãe de um moleque com não mais de trinta quilos e ainda proprietário de um quase insignificante prepúcio; mulher de mão certeira para a gastronomia iídiche como raramente se viu; desejada por toda comunidade, apesar dos grossos fios negros do buço umedecidos por um sempre presente suor.
O Rabino, que afirmava chamar-se Isaac e que respondia mesmo por tal nome quando chamado, veio apressado para junto de minha pessoa. Seus olhos, que também se dirigiam em minha direção, vinham quase que pipocando para fora das órbitas e, dos cantos dos lábios constringidos, os quais seguiam os passos dos olhos e vinham também em minha direção, descia uma líquida e esbranquiçada baba que borbulhava e que, quando explodia, fazia “ploc-ploc”.
- Seu demônio! Monstruoso! Monstruoso demônio! –ele vociferou, enquanto dava-me tabefes estalados e ardidos.
- Mas que porra é essa, Rabino? - resolvi educadamente questionar, já que não atinava patavinas. - Matei Hitler e tu tratas esse judeuzinho herói aqui com palavras e gestos tão vis e impróprios para um homem em sua posição?
- És o próprio Satã! Ora, o nazista miserável ousa postar-se diante de mim!
Essa última frase, entorpecida de ferocidade e, acima de tudo, questionável, feita por dona Illana, quase não foi ouvida por minhas orelhinhas, já que essa dona já fazia questão de me aplicar um justíssimo mata-leão, deitando-me contra o chão gelado da sinagoga e depois atingindo minha face com um afiado e destruidor ground-pounding.
De modo que só fui perceber que estava morto muito tempo depois. E não só me assustei ao perceber minha própria morte, como um abismal terror correu por toda a extensão de minha coluna vertebral quando vi no reflexo de um espelho (que agora não necessita explicar de onde veio) que era eu também o tal Adolf Hitler, e que talvez por isso eu tenha sido espancado, morto, violentado sexualmente - tudo me leva a crer que por Rabino Isaac- e posteriormente estripado, em minha própria sinagoga.
Mas não só pela dor este relato é constituído.
Logo após minha horrorosa morte, os dois criminosos - os assassinos do Adolf(eu) que havia anteriormente enforcado Hitler(o mendigo) - resolveram dar uma bimbada ali mesmo no chão gelado da sinagoga ao lado do meu corpo destroçado - ato de natureza comemorativa, ouso crer-, jogar meu corpo num container qualquer e depois ir cada um para seu canto.
Naquela mesma noite, porém, qual não foi a aterrorizada reação de Jacó e de seu pequeno filho ao verem, petrificados, que quem punha a louça polonesa na mesa era ninguém menos que Hitler vestindo um surrado avental de cozinha?
E qual não foi o terrível choque da família de Jacó, de Illana e dos amigos convivas algumas semanas depois durante o Bar Miztvah do filho do casal, quando viram o Rabino Isaac exibindo um aparadíssimo e reluzente bigode quadrado sobre o sorriso demoníaco, cortando o prepúcio do tremente menino enquanto a ensandecida mãe Illana, então transfigurada em ditador, cuja face cadavérica apresentava um bigode tão quadrado e lustroso quanto a do rabino, chorava um pranto de alegria e consternação, já planejando incendiar a própria casa enquanto o marido e o filho dormiam , para depois fugir e se casar com o Rabino em Israel?
E qual não foi a reação das autoridades e da população israelense quando avistaram esse casal apaixonado deixando o Aeroporto Ben Gurion em Tel Aviv, carregando seus pertences agilmente em carinhos de bagagem?
E qual não foi a reação do taxista ao ver os pombinhos com o braço direito estendido e com os dedos verticalizados da palma da mão, ordenando com grande impaciência que encostasse o veículo imediatamente?