Palavra presa na garganta Vol. 22
João Vicente
Milton Nascimento apresentou no último dia 19, na Via Funchal, em São Paulo, a turnê de …E a Gente Sonhando, seu último álbum. Lançado em 2010, o disco leva o nome de uma das primeiras composições de Milton que foram gravadas – pelo Tempo Trio, em 1966. E se o título remete aos sonhos do passado que levaram ao artista consagrado de hoje, são esses mesmos sonhos que ele parece fortalecer nos artistas da nova geração.
Logo ao início do show, o cantor, carioca de berço, mineiro de coração, conta sobre a origem do disco. Quando chegou às suas mãos o livro The brazilian sound, de Chris McGowan e Ricardo Pessanha, Milton se surpreendeu ao ver que Três Pontas, a cidade onde foi criado, figurava entre os pólos musicais mais importantes do Brasil. Sem saber o que os turistas encontrariam quando chegassem lá, tratou de perguntar ao amigo Marco Elízeo (que participa da produção de … E a Gente Sonhando) a quantas andava a criação artística da cidade e, assim, foi apresentado a um grande número de novos talentos. Encantado com o que encontrou, convidou os jovens para a gravação do disco, onde participaram como instrumentistas, compositores e cantores, tal como o fizeram diante do público paulistano.
Trajado de pólo vermelha, paletó cáqui e óculos escuros, Milton foi acompanhado por um coral de mais de vinte jovens, espalhados por plataformas no palco: rapazes, com jeans e camiseta, e moças, com vestidos brancos e flores no cabelo. As roupas em harmonia e as coreografias arriscadas davam um ar de “musical” festivo ao show, o que era contraposto à densidade da maioria das canções do novo disco, que formaram grande parte do repertório da apresentação.
Elis Regina, com a maior das propriedades, disse que “se Deus cantasse, seria com a voz do Milton”. Embora o canto de Bituca seja sempre soberano, ele parece assumir vigor mais intenso nas novidades, como Amor do céu, amor do mar (canção que, aliás, cita Elis), do que em músicas consagradas como Nos Bailes da Vida e Maria, Maria. A mesma impressão fica quando Milton pede para que a plateia entoe Canção da América em seu lugar. O convite talvez venha por conta dos tantos anos em que vem apresentando a música, talvez venha por conta da poesia da ocasião, mas fato é que o ato acontece com tal beleza que abre vantagem para a segunda possibilidade.
A certa altura do show, o cantor e compositor senta-se e, flanqueado pelo jovem coral, observa-os silenciosamente na interpretação de Comunhão, enquanto os nomes dos integrantes são exibidos na projeção ao fundo do palco. E, em diversos momentos, os talentos trespontanos assumem os holofotes, o que pode ser sinal de que Milton quer apresentar novos soldados – munidos de sonhos – em sua eterna briga contra o rei, citada nos versos de Caxangá.
No fim das contas, fica ao gosto de cada ouvinte decidir se Três Pontas mantém sua posição de grande berço musical brasileiro. O aval de Milton Nascimento eles já têm.
* Texto também publicado em 20/06/11 no Showlivre.com. Fotos: Laís Aranha.
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