Linhas Tortas vol.19
Guilherme Abati
Garry Bronhovitch jamais deixou de carregar nos bolsos das calças uma caixa de fósforos, um par de luvas de látex descartável, um tablete de manteiga sem sal e, ao menos, uma versão pocket-book de capa azul e folhas de papel-jornal do Antigo Testamento.
Tinha dois braços delgados, compridíssimos e, nas extremidades destes, dois finos punhos impressionantemente flexíveis - sendo capaz de girar simultaneamente com muita agilidade suas duas mãos em sentidos opostos enquanto reproduzia à beira da perfeição o som das ferozes turbinas de um avião supersônico em dia de exibição.
Quando requisitados, especialistas e numerosas baterias de testes e exames (Garry sofreu uma misteriosa convulsão durante a retirada de uma unha encravada na clínica podológica da prima) ratificaram sua ampla capacidade respiratória, constataram suas taxas de colesterol em níveis satisfatórios e contaram números regulares e esperados de hemácias e plaquetas a boiar pelo seu sangue.
Por mais que remexessem por toda a extensão de seu corpo esguio durante os poucos mais de quatro dias de internação, os médicos do hospital de San Diego não encontraram tumor, diabetes, câncer, otite, gastrite, gonorréia ou uretrite aguda nenhuma em Garry- e ainda aproveitaram para retirar por conta própria aquela pontinha de unha afiada ainda mergulhada na carne dura do seu dedão esquerdo.
E essas boas notícias alegraram Garry ainda mais quando ele relembrou, tendo recebido alta e sendo levado de volta para casa depois dessa arrastada passagem pelo hospital, que mantinha vinte e um pares de meias brancas e cheirosas na segunda gaveta da cômoda de seu quarto; que guardava secretamente quatro Penthouse’s bastante castigadas embaixo dos seus livros de escola e que diariamente, independente de onde estivesse ou da ocasião, punha seu blackberry para despertar às quatro horas da manhã para comer três paçocas e anotar num bloco de notas timbrado da IBM suas recentes vivências oníricas.
Sabia que ainda guardava em algum canto de sua casa um grosso cobertor tricolor que o reconfortaria e manteria seu calor corporal inalterado mesmo ante a mais polar frente fria vinda de Vladvostok; que ligaria sua televisão de oito polegadas e não veria dificuldade em encontrar algum programa que o agradasse; que seu blue-ray e suas imensas duas caixas de som stereo estariam implorando para serem requisitados ao extremo e que - e isso era o mais importante: era sexualmente ativo e conseguia criar mirabolantes narrativas pornográficas em um estalar de dedos.
Seus batimentos cardíacos amansaram quando ele ouviu o ranger familiar da porta da entrada da sua casa, e, depois de acender as luzes dos lustres da sala de estar, Garry pôde fechar seus olhos serenamente, sentindo o saudoso e fraterno silêncio que finalmente o circundava.
Pelo horário avançado da noite, Juanita, a diarista guatemalteca, já deveria estar descansando nos quarto dos fundos e, se nada ocorresse fora do esperado, só a encontraria pelo fim da próxima manhã.
Seu rosto combalido pelo distanciamento repentino do lar e pelo desgaste das horas de ásperos sonos nos leitos das camas magras do hospital aparentou preencher-se com cálidas cores e ele, como sempre fazia quando sentia a dita felicidade formigar em seu corpo, aproveitou o ermo cômodo para peidar solenemente - como se este gesto, que em outros momentos poderia ser acertadamente interpretado como deselegante, o libertasse daquelas indesejáveis pestilências que sofrera e o assustara havia pouco.
Partiu para seu quarto, incontido, quase alcançando ritmo de corrida; os batimentos reacelerando-se em um ritmo perigoso e os músculos retesando-se ansiosos. Gotículas de suor brotejavam da testa e reluziram sob os lustres da escada, conforme a escalava e depois dirigia-se para o fundo sinuoso do corredor.
O disco prateado Rocco Goes to Montreal foi inserido no leitor de mídia do blue-ray pela mão tremente de Garry; e das caixas despontou um rumor suave que, conforme teve o volume aumentado, transformou-se em um hipnotizante blues.
Um sorriso nasceu em seu rosto, dilatando-se gradativamente, e ele pôde então ouvir o som tímido e quase esquecido de seu raro riso.
Garry, antes de se livrar das calças, sacou o tablete de manteiga e o par de luvas dos bolsos; com dois palitos retirados da caixa de fósforos ele acendeu uma rotunda vela vermelha aromatizante e deixou-a consumir-se lentamente ao lado de sua cama. Da gaveta da cômoda pescou dois pares de meias. Abriu o Novo Testamento em uma página aleatória. Deteve os olhos por minutos em um único trecho, orando e agradecendo pela seu restabelecimento até uma lágrima escorrer dos olhos cerrados. Buscou as edições sobreviventes da Penthouse e também as abriu aleatóriamente sobre a coberta tricolor, a qual já o cobria maternalmente, e disponibilizou-as de modo que pudesse vislumbrar todas as quatro antigas capas ao mesmo tempo. Finalmente para a televisão de oito polegadas passou a lançar olhares transbordantes de lascivia…
Vinte segundos depois saiu arfando do quarto. Tinha o corpo lavado de suor e uma sede sufocante. Porém o olhar ardente e a furiosa rigidez do corpo pareciam agora domados de certa forma.
Afinal, para ele - assim como deve ser para inúmeros cidadãos, sobre quem muito ouvimos falar- quatro dias sem punheta é um castigo para quem nem aos nossos inimigos mais odiados nos desejamos.
Com isso em mente, Garry Bronhovitch adentrou sua cozinha e tomou três copos de Catuaba em três rápidos goles.Verteu metade de um saco de amendoim de quinhentas gramas para dentro da bocarra aberta e mastigou tudo aquilo com sérias dificuldades; depois demorou-se em uma extensa inspiração e foi acordar Juanita. Tinha quatro dias de atraso pra tirar das costas.