Palavra presa na garganta Vol. 23
João Vicente
Há algo neste mundo que costumo chamar de utopia dos lugares. Por exemplo, quando Woody Allen retrata Manhattan como um ambiente de charme, bom entretenimento e vidas interessantes, cria uma utopia de Nova York – ou ao menos colabora com esta criação. O diretor ajuda a fornecer material para a concepção que temos deste ambiente. Diga-se, no caso mencionado, não somente Allen coopera, mas uma infinidade de pessoas que já exaltaram Nova York aos olhos do público.
Uma conhecida frase de John Lennon diz: “Se eu tivesse vivido em tempos romanos, eu teria vivido em Roma. Onde mais? A América de hoje é o Império Romano e Nova York é a própria Roma”. Em minha modesta e impulsiva opinião, acredito que esta elevação da capital financeira dos EUA ao posto de centro e modelo do mundo não se deu somente pelo supremo poder econômico-político-militar do país, mas sim pela investida cultural que esta condição “suprema” propiciou. Com uma indústria artística que possui os meios para divulgar a si mesma no planeta inteiro, nossas opções de entretenimento são, há muito, lotadas de alternativas norte-americanas. Mais do que isso, é impossível andar por mais de um quarteirão sem encontrar uma palavra em inglês em alguma placa, parede ou folheto.
Como se sabe, quando seu leque de opções (sempre ele) é dado por alguém, seu poder de escolha é limitado a este leque – que muito provavelmente atende aos interesses de quem o oferece. Como escreveu Gilberto Dimenstein: “Ninguém pode dizer que é livre para tomar o sorvete que quiser se conhecer apenas o sabor limão”. Assim, nosso escopo de entretenimento é abarrotado por sorvetes de limão estadunidenses a tal ponto que, alguns dias atrás, testemunhei a surpresa de duas turistas norte-americanas ao perceberem que muitos brasileiros haviam visto filmes produzidos nos EUA que elas mesmas desconheciam. Há algum tempo me questiono se possuímos uma utopia por Nova York por que lá, de fato, é um lugar interessante ou se nossa imersão na cultura norte-americana é tão vasta que nos torna míopes ao encanto do que está ao nosso redor, e nos cerca de uma opção, em princípio, hegemônica.
Por outro lado, ao ouvir as canções de Vinicius de Moraes e Tom Jobim, percebo, também, uma criação de utopia carioca. Não parece convidativo presenciar os famosos eventos no apartamento de Nara Leão em Copacabana e ouvir os recentes violões da Bossa Nova? Alguns anos a frente, não seria uma delícia sentar-se com Tom, Vinicius e Chico Buarque e tomar um chope gelado na Plataforma? Quando se quer e se pode ver, há, felizmente, alternativas para a escolha de nossas próprias utopias. Em uma leitura livre do poema de Drummond, apesar da náusea, há uma flor. E, em São Paulo, diante de tanto, encontro minha própria utopia. “Com todo defeito, te carrego no meu peito”, como escreveu o genial Tom Zé.
Conheci recentemente uma visitante que não estava familiarizada com os pontos turísticos da cidade e, assim, passou por alguns lugares importantes da vida cultural e histórica de São Paulo. Eu, que sou eterno visitante, me perguntei sobre pontos interessantes que poderiam servir de indicação. E me dei conta de que minha indicação principal, o lugar imperdível, a sugestão essencial, seria meu bairro. Meu tour ideal pela cidade seria o boteco que freqüento, a casa dos bons shows, o cinema ao lado de uma boa livraria, a lanchonete com o melhor hambúrguer (e a melhor maionese), a padaria com o pão mais quentinho, o espaço de exposições com um café redentor. Meu tour não teria pontos turísticos, mas os sinais da vida que acontece quando se está aqui.
E a interlocutora afirmou, esclarecendo minhas perspectivas, que São Paulo era uma boa cidade para se viver, não para visitar. Pois, desta maneira, seria possível usufruir do que a garoa paulistana oferece no dinamismo de seu cotidiano. Talvez por isso eu considere tão difícil sair, mesmo que por alguns dias, daqui – embora a cidade peça por um fôlego, às vezes. Porque São Paulo é feita de sua dinâmica, de seu movimento, da vida que vem e vai. Em exposições, filmes, concertos, palestras, aulas, em sua noite.
Esta cidade tem um fluxo natural em seu dia-a-dia, e é difícil sair quando se sente que se faz parte deste fluxo, quando se está imerso nele. Você o acompanha, tal como também o ajuda a acontecer, da maneira que seja. Certamente alguns prazeres mundanos pertencem a uma minoria mínima que pode usufruir deles. Porém, mesmo a vontade, incipiente e tímida, de mudar este aspecto de São Paulo, está aqui.
* Texto publicado em 20/08/09 no antigo Muito Horrorshow!.
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