July 12, 2011
Cinco minutos a mais nesse mundo

Linhas Tortas vol.20

Guilherme Abati 

No dia em que revelaram algumas necessárias verdades um para o outro, os dois acordaram precisamente na mesma hora e no mesmíssimo minuto: 07:07.

Pois às 07:13 os dois sorriram o mesmo riso gostoso ao verem suas esposas vertendo um fumegante líquido preto em suas xícaras rasas, e sentaram-se famintos às cabeceiras das mesas redondas cobertas por panos brancos em avançado estado de desintegração.

Alimentaram-se os dois exatamente das mesmas coisas durante os longos desjejuns: um prato de Fruit Loops inundado por leite gelado desnatado, seguido de meio pão francês amanhecido, este depois de um arrotinho tímido calado sem sucesso por um guardanapo amarrotado.

Os dois, depois das abluções matinais, despediram-se das respectivas companheiras - eram 08:12- cada qual em sua casa, e partiram para o dia que jamais haveriam de esquecer.

Pois ao atravessar os portões de suas residências (que eram da mesma cor branca e que rangeram arrastadamente da mesma forma, como se já lamentassem o futuro obscuro que haveria de ser vivido por aqueles a quem serviam), foi-se a época de calmaria; das noites bem dormidas; dos desjejuns demorados; dos extensos banhos com as respectivas patroas; das plácidas inalações de ar recém desperto à varanda enquanto o sol erguia-se preguiçoso acima do ronronar das asas dos beija-flores.

Foi-se, de ter ido e não querer voltar mais, a época em que os dois prefeitos daquelas cidades ainda estavam em pleno início de mandato e os escândalos de corrupção, os favorecimentos ilícitos e as usuais tramóias ensinadas nas cartilhas de gerenciamento público ainda não haviam vindo à tona, e que, muito por isso, não havia sossego de modo algum perturbado pelos entremeios e partes circundantes das duas cidades vizinhas e certas vezes imperceptivelmente distintas.

Os dois prefeitos das cidadezinhas, as quais tinham quase o mesmo número de habitantes, a mesma base econômica (prostituição infanto-juvenil) e que também, de fato, tinham as Igrejas centrais com o mesmo nome, se abraçaram durante confortáveis dez segundos em um prostíbulo de luxo à beira de uma erma estrada bastante afastada das duas cidades, e entre palmadas nas costas alheia e apertões nos tríceps frouxos, riram satisfeitos por pôr fim à longa época de obrigatório afastamento.

Confirmaram sentir saudades um do outro – o que era de fato verdade – e logo dirigiram as conversas aos assuntos do dia-a-dia político, abrindo a primeira das garrafas de Juanito Caminante.

Abelardo atualizou o outro homem sobre as novas formas criadas pelo seu gabinete para extorquir dinheiro de dois pipoqueiros e em seguida contou como atirou a panela transbordante de milho de um deles para além da ponte quando resolveram não pingar os 20 reais mensais de custo pela permissão para exercer o comércio no local.

Caio, por sua vez, contou com as mãos trementes e os olhos explodindo em cores feito fogos de Reveillon, como fez a mãe de sua secretária particular cortar as dez unhas dos dedos dos seus pés e depois a obrigou, sob ameaça da demissão sumária da filha. que pagasse a irrisória quantia de 50 reais pelo serviço irrecriminável que ela mesma havia prestado. 

Pouco depois das 12:43, depois de empanturrarem-se sem descanso de miojo Nissim Lamem sabor galinha caipira, resfolegaram, espreguiçaram  e espalharam seus membros para além das cadeiras estofadas, contentes pelo reencontro, pelas lembranças dos fatos recentes divididos há pouco, pelo promissor porvir e pediram sem polidez alguma que mandassem outra garrafa.

O quê os dois não sabiam, porém, era que alguns problemas vinham em um galopar frenético, envoltos, sem serem notados por eles, em uma névoa de um silêncio mordaz, a qual já se preparada para despontar dolorosamente de dentro do pouco de humano que ainda restava a um deles, impactando-lhes, porém, irremediavelmente.

E esse intenso impacto - digno de fazer nuvem cheia d’água estourar fácil como uma bexiga cutucada por agulha - ocorreu momentos depois, quando Abelardo, o mais jovem e mais bem votado prefeito da história da cidade de Jurerêaçu, resolveu ser sincero com seu irmão gêmeo cinco minutos mais moço, Caio, prefeito mais jovem e mais bem votado da cidade de Jurerêaçu Mirim.

Havia chegado o momento que acontecia uma vez por mês: os dois trocariam novamente de papéis e, assim, um assumiria a função do outro junto à prefeitura e à esposa. Mas Abelardo endureceu as feições que até outrora estavam vivas e repletas pela satisfação nascida das ações cruéis para as quais vinha dedicando-se com afinco.

Disse ao irmão que dessa vez não iriam em frente.

O irmão riu debochado. Disse que estava com saudades das coxas da outra mulher e de sua disposição irrevogável ao coito, coisa que essa mulher pecava amiúde. E que iriam continuar com aquele joguinho divertido e que jamais deveriam pensar em desistir.

Abelardo disse que já bastava aquela palhaçada. Que já era hora de cada um ficar com uma de uma vez por todas e que não iria trocar de mulher mais não, que iria ficar com a atual e que Caio que ficasse com a outra. Caio disse que aquilo jamais iria acontecer. Perguntou enraivecido que motivo fazia o irmão poder escolher a vagabunda que quisesse primeiro. Abelardo falou, sabendo da inexistência de qualquer razão válida, que ele tinha cinco minutos a mais nesse mundo e que era pro irmão acatá-lo antes que ele perdesse a cabeça.

Às 12:56, Caio se levantou, empunhando uma arminha mixuruca que carregava pra baixo e pra cima e disparou um tiro que perfurou a boca e depois atravessou as primeiras das vértebras cervicais de Abelardo.

Precisos cinco minutos depois do disparo, às 13:01, um segurança descarregou um pente de seis balas calibre 22 no peito de Caio depois que este ameaçou disparar contra clientes do local.

E foi como se os relógios de suas existências lutassem para movimentarem-se sincronicamente, pois os irmãos Caio e Abelardo viveram exatamente ao longo do mesmo período de tempo aqui nesta terra.

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