July 19, 2011
Com seus próprios olhos

Linhas Tortas vol21

Guilherme Abati

Quando alguns raios do Sol incidiram inconvenientemente sobre todos os seus olhos ainda cerrados e o acordaram, ele notou que tinha coisa errada. Com as mãos escorregando pelas linhas do rosto, ele certificou-se alarmadamente que tinha seus dois olhos normais e também mais dois olhos que não costumavam estar por ali. Acima destes últimos, ele percebeu a presença também de duas novas sobrancelhas, além das duas outras que sempre teve.

Ergueu-se ao som das primeiras buzinas mais impacientes do dia, trinta minutos depois de realizar aquele acontecimento horrendo. À beira do colchão, silenciosamente, esfregou apenas os olhos que estavam em sua cara desde que nasceu, uma vez que já sentia um forte asco dos outros dois. “Asco tal qual sentem os pais enquanto banham seus filhos adotados”, pensou, antes de se arrepender e envergonhar-se da comparação. Ainda incrédulo, aguardado o restabelecimento dos fatos tais como eram desde que os percebia, levantou-se imperceptivelmente da cama, sem saber para onde ir ou o que iria fazer. Sabia apenas que não deveria acordá-la.

Arrastava-se havia pouco, em meio a sua silenciosa fuga, quando passou-lhe a idéia de ir ver com os próprios olhos quantos olhos realmente tinham na cara. E por isso, durante o vital trajeto ao banheiro, ele evitou até pensar. Fazia plena questão de evitar que o quarto onde sua mulher grávida de oito meses ainda dormia fosse infestado por seus pensamentos desesperados.

Nesse ínterim, pressionava brutalmente as próprias têmporas, constringindo-as com a força alucinada de seu maxilar - tinha em si um misto de noite mal dormida e a sensação de ser alvo de algum castigo.  E foi quando entrou no banheiro que viu finalmente aqueles quatro olhos injetados e petrificados olhando para si. Seus quatro olhos. E ali mesmo quis verter lágrimas por aqueles quatro pontos.

Piscou-os todos. Depois só um. E aí todos. Então só três. E Repetiu. E fez isso até concluir que eles respondiam obedientemente à sua vontade e então acalmou-se. Chegou até a esboçar um sorriso que claramente não vingou. Depois desencostou a porta do banheiro e, com a mulher ainda em sonhos, velozmente abandonou sua casa da mesma maneira como acordou: assustado, sem saber qual rumo tomar.

Os dois olhos recém-nascidos que se faziam naquela cara, sabe-se lá por quem ou por qual motivo, não alteravam notadamente o modo com ele enxergava as coisas. As imagens sobrepostas eram quase as mesmas, diferenciando-se apenas quanto à altura. Caso os dois novatos o incomodassem durante o trajeto feito por carro ao seu consultório médico, ele deveria simplesmente fechá-los.    

Em seu consultório achou ter descoberto, antes de qualquer contato com pacientes, um modo eficaz de esconder aquela anormalidade dupla incrustada em sua testa. Além de suavizar a entrada do sol matinal fechando as persianas tanto quanto possível, o oftalmologista aproveitou seus cabelos longos e ajeitou cuidadosamente a franja por sobre os olhos. Minutos depois desistiu da estratégia, as pontas ainda remexidas pelo sono infantilmente tratavam de beliscar a pele dos novos olhos, e então ele resolveu enfrentar o que estivesse pela frente.

Sua primeira paciente era uma senhora cuja vista já estava completamente ceifada por um avançado e faminto glaucoma.  Nervos ópticos inválidos. Campo de visão prejudicadíssimo. Ela entrou e ele examinou. Nada podia ser feito, com exceção de um improvável, remoto transplante.

Ela saiu e ele examinou. Examinou dessa vez a possibilidade infundada que havia explodido em sua cabeça minutos antes; tentava agora juntar os fragmentos reduzidos de seu cérebro e ponderar sobre o que havia pensado enquanto examinava aqueles moribundos olhos. Transplantaria seus próprios olhos e os colocaria ali onde aqueles dois glóbulos, tais como uma lâmpada cansada, aguardavam apenas pela escuridão.

Na tarde do mesmo dia, encontrou-se com dois confiáveis colegas de faculdade. Mostrou aquilo que de forma fracassada tentava esconder, ora com as mãos ora com um boné comprado às pressas. Explicou seu plano, fariam aquilo sem envolvimento de nenhum outro e rapidamente, uma vez que os olhos daquela senhora iriam desligar a qualquer momento. No dia seguinte realizariam o transplante.

Chegou tarde a sua casa e saiu antes dos raios alfinetarem seu quarteto ocular. Não viu a mulher acordada, viu apenas um pouco de seu rosto encoberto pelos cabelos loiros e aquela montanha encoberta pelos cobertores.

 O transplante foi feito sem complicações. A senhora, então, tinha dois olhos novos, bons; o oftalmologista, dois a menos e uma profunda satisfação, espessa e calma tal qual uma marola suave.

Chegou cedo a sua casa e tirou as faixas da testa. Explicou aquilo, aqueles dois buracos profundos na testa. A mulher chorou e se apaixonou um pouquinho mais - se é que isso seja possível – pelo pai de seu iminente filho.

Mas no dia seguinte, a claridade que sentiu, quando a luz furtivamente irrompeu pela janela do quarto, era tão intensa quanto à do dia anterior, porque ele tinha novamente mais dois olhos na testa. E tal como naquele dia, partiu depressa de casa. Dessa vez ligou novamente para os colegas, estes indicaram mais um paciente em vias de perder a visão e trataram de organizar as necessidades para mais um transplante, nos mesmos moldes do feito na senhora.

E durante mais uma semana aquilo se repetiu. Pele amanhã, dois novos e saudáveis olhos brotavam em sua testa; pela tarde, seus colegas os punham onde eles de fato deveriam estar.

Até que uma manhã, quando automaticamente já se preparava para partir com seus quatro olhos no rosto, ele percebeu algo não usual, levou as mãos à testa e notou a falta deles - ali só havia duas asquerosas cavidades.

Não atinou patavinas. Comunicou os oftalmologistas com pesar e resolveu entregar-se novamente aos caprichos da cama. Subitamente, talvez dez minutos depois de pegar novamente no sono, sua mulher gritou e se contorceu.

No hospital o informaram que sua mulher estava ótima e já se recuperava. Porém, o médico o levou até um canto pelos braços e lhe comunicou a falta de olhos da criança recém-nascida.

Ligou para os seus colegas de faculdade. Disse que tinha um paciente que urgentemente precisava de transplante e um deles perguntou curioso se os olhos haviam nascido novamente. Ele disse que não, que dessa vez daria os dele.

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