August 2, 2011
O Sutiã

Linhas Tortas vol.23

Guilherme Abati

Dali do alto dos seios do manequim, o sutiã assistiu a passagem arrastada do tempo; notou com atenção as transformações nos gostos das clientes e das modas que seguiam; chorou durante longas noites, depois que as funcionárias apagavam as luzes e o deixavam sozinho no escuro indomável; nos manequins da loja de esporte defronte da vitrine onde era exposto, contou o aumento das estrelas sobre o distintivo sagrado do Sport Club Corinthians Paulista - as quais multiplicaram-se rapidamente pelos últimos anos do último século.

Um dia, então, finalmente um par de olhos de brilho jovem, totalmente distintos daqueles que por longo tempo apenas o percebiam com desinteresse, notaram-no de verdade e ficaram por observá-lo, adorando suas formas e cores, e sonhando com ele posto em seu corpo de menina, suportando as aguardadas mudanças que trazia orgulhosamente em si.

Segundos depois o sutiã foi levado num contentamento ainda maior que o da menina, e assim rumou para a casa onde serviria dignamente o corpo daquela que o escolheu.

Todo o pesar por amargar o esquecimento por sobre aqueles seios inanimados e pálidos, por experimentar repetidamente o repúdio nos olhos daquele contingente de madames, não seria nada diante dos próximos anos que ele e a menina tinham pela frente.

Foi o primeiro a ter a honra de tocá-los e aceitou corajosamente tarefa de tão vital importância. Mas não suportava afastar-se deles e da menina que tanto amava, e que havia tirado-o da vista das mesquinhas transeuntes daquele shopping, aninhado-o sobre o cálido pulsar de um coração que apenas se ajeitava naquele início de vida.

Conforme os dias passavam e mais mulher havia naquele corpo de antiga menina, o sutiã notava que o fardo lhe era pesado demais e que antes de ser tomado como inútil seria jogado num canto escuro de alguma gaveta empoeirada, e que aí então seria de fato esquecido como se nunca houvesse sido ele o primeiro em sua vida.

E então durante aquele que provavelmente seria seu último serviço, o sutiã agarrou-a para nunca mais deixá-la ir; desesperado, queria acompanhá-la por quanto tempo sua vida perdurasse, até o desolador instante em que seu calor daria lugar ao frio cadavérico que a todos espreita.

E assim foi feito. A menina, depois mulher, e depois já senhora, jamais livrou-se daquele sutiã. Usou-o primeiro, nos dias de menina, com muito orgulho, mas depois só pôde carregá-lo como castigo que nem depois de ter a vida esgotada livrou-se.

Não gerou filhos, pois não havia como; e também, como ela fez questão de repetir para si até o último dia, a estranheza daquele objeto que sugava sua vida a afastou dos poucos homens que se mostraram a ela.

Foi enterrada com ele. E enquanto sua carne esvaia-se, ele lá permaneceu. Mas depois de nada lá restar, quando somente como companhia havia o esquecimento e a escuridão, ele pôs-se para fora do caixão, arrastou-se até a antiga vitrine e por lá ficou, esperando outra menina fresca de vida para suga-la por completo.

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