August 11, 2011
Kiko Dinucci lança Metá Metá no RJ

Palavra presa na garganta Vol. 25

João Vicente


“Músico que faz cinema / Artista-plástico que canta / Violão que desenha, desanda”. O trecho é do poema Mundo, pra que vim?, que apresenta o multiartista Kiko Dinucci em sua página na rede social Multiply. Porém, se esta ferramenta internética caiu em desuso e a data do texto parece um pouco distante (19 de maio de 2007), a veia artística do sambista, se podemos resumi-lo assim, pulsa agora como nunca.

Dinucci tem, dentre seus canais de expressão, as artes plásticas e roteiros de histórias em quadrinhos. No cinema, dirigiu o documentário A Dança das Cabaças: Exu no Brasil. Entretanto, atualmente, é na música que recebe sua maior notoriedade, muito embora suas outras manifestações artísticas estejam entre os motivos pelos quais é chamado de “gênio” no meio artístico.

Com cinco discos lançados, em sua música é possível sentir marcas da cultura africana e do samba. Embora caminhe por estas vertentes, seu passado musical trafega pela cena do hardcore paulistano, um fato curioso que acabou por se tornar clichê nas matérias jornalísticas que tratam de Kiko – o próprio, aliás, já expressou insatisfação com essa lembrança insistente.

Outro clichê sobre sua produção musical é a forte característica urbana. Mais precisamente, paulistana. Em entrevista à revista Rolling Stone, o compositor criticou parte da cena sambista de São Paulo, muito afeita aos temas e trejeitos do samba carioca, e distante da realidade em que vive. Já Kiko, não só embebeda sua música de crônicas da cidade, como está próximo do cenário musical que ocorre por aqui.

Todos os seus álbuns foram lançados em parceria com outros artistas. Ao lado do AfroMacarrônico, lançou Pastiche Nagô (2008). Com Juçara Marçal veio Padê (2008). Formou o Duo Moviola com Douglas Germano e colocou na praça O Retrato do Artista quando Pede (2009). Seu penúltimo álbum foi Na boca dos Outros (2009), um trabalho onde empresta os vocais de suas composições para parceiros como Fabiana Cozza, Marcelo Pretto e Rodrigo Brandão.

Atualmente, retoma a parceria com Juçara Marçal e, acompanhados por Thiago França, formam o trio que acaba de dar vida à Metá Metá. Em entrevista à redação do showlivre.com, Kiko contou sobre o repertório do disco. “Eram músicas que a gente gostava, canções de compositores que a gente é fã”, e acrescenta: “Foram músicas que a gente já tocava brincando e foram entrando no repertório. E a ideia é a gente deixar a nossa marca, nossa personalidade, e tocar de um jeito diferente do que esses autores fizeram”.

O disco foi lançado em formato digital por meio do aplicativo Bagagem, uma iniciativa dos músicos do projeto Axial. A plataforma permite a audição gratuita das músicas e oferece as imagens dos encartes tradicionais de CDs e LPs. Sobre a distribuição gratuita do disco, Thiago França afirma: “a gente já é veterano em compartilhar coisa na internet”. Metá Metá também foi disponibilizado inicialmente para blogs de compartilhamento de música, como Um que tenha e Original Pinheiros Style. Ainda a respeito do tema, Dinucci comenta: “A ideia é espalhar. Um dado curioso é que a gente, quando lança disco, manda fazer mil cópias na fábrica e tem que ficar um ano cheio de caixa de CD em casa”. Já neste lançamento, com o modelo digital de distribuição, Kiko afirma ter tido, em uma semana, o mesmo número de acessos de todas as prensagens feitas na carreira.

O aplicativo também permite a exibição de vídeos que acompanham cada canção. Entretanto, não há exatamente clipes com narrativas para as músicas, mas sim imagens aleatórias, focadas nas artes plásticas. Kiko esclarece: “O importante é a obra dentro do vídeo, não o vídeo ser uma obra em si, um clipe, uma coisa super editada”.

O termo que dá nome ao álbum Metá Metá é iorubano e remete à ideia de tríade. No palco, vê-se uma bela concisão entre os três alicerces musicais formados por Kiko, Thiago e Juçara. Em uma apresentação delicadamente espontânea, o trio caminha da melancolia sutil de Papel Sulfite ao peso de Obá Iná com precisão. Algo que somente extensa e consistente bagagem artística pode oferecer.

O público carioca terá a oportunidade de assistir ao lançamento do álbum no Solar do Botafogo, na quarta-feira (10/08), às 21h30. Ainda há ingressos disponíveis e o disco pode ser baixado no site www.kikodinucci.com.br. A redação do showlivre.com recomenda.

Serviço
Kiko Dinucci, Juçara Marçal e Thiago França lançam Metá Metá no Rio de Janeiro
Local: Solar de Botafogo
Endereço: Rua General Polidoro, 180 – Botafogo – Rio de Janeiro – RJ
Data: Quarta-feira, 10/08/11
Hora: 21h30
Site: www.solardebotafogo.com.br
Telefone: 21 2543-5411

Ingressos: R$ 40,00 e R$ 30,00 (100 primeiros ingressos), R$ 20 (estudantes e lista amiga para 50 primeiros ingressos – musicanosolar@gmail.com). Compras antecipadas na bilheteria do teatro ou no site www.ingresso.com

* Texto também publicado em 09/08/11 no Showlivre.com.
Fotos: Laís Aranha.

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